sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Os Dias no Deserto...



Quando li sobre um período da vida da escritora Adélia Prado, que ela denomina ‘a temporada no deserto’, pensei: temos algo em comum! Além da cidade de Divinópolis, onde morei durante época memorável de minha vida. Não é dessa lembrança feliz, contudo, que quero falar, e sim de um período amargo, triste e solitário: os dias no deserto.

Como fui parar lá? Está aí algo que eu adoraria saber. Se tivesse encontrado essa resposta na época, teria retornado pela trilha de ida, e encurtado caminhos de dor e sofrimento que experimentei. O fato é que num belo dia acordei só e perdida, esquecida num mundo estranho ao meu, e logicamente meu ‘belo dia’ ensolarado perdeu suas cores e ganhou a tonalidade cinza. Foram muito mais do que algumas horas até compreender o que estava acontecendo comigo. Eu dizia para mim mesma que era apenas um pesadelo e que no instante seguinte eu iria acordar dele e tudo estaria resolvido. Mas não foi assim. O pesadelo se prolongou a tal ponto de eu me perguntar o que era real e o que era imaginário. Eu mesma comecei a duvidar de minha sanidade. Parte de meu registro na época expressa bem o que senti:

“Pergunto-me a cada passo se ainda falta muito para chegar. Sei que a cada passo a distância diminui, e que estou a cada minuto mais perto de meu destino. Mas a questão real é: por quanto tempo ainda terei forças para andar? Há momentos em que um dia é muito tempo. O meu Hoje está muito longo e por vezes me sinto prestes a fraquejar. O que me sustenta? Saber onde quero chegar. Saber que não caminho para ‘lugar nenhum’, mas que tenho um destino certo e pleno de alegrias. Onde encontro forças? Nessa visão do futuro, muito nítida em minha mente. Se dependesse apenas de meu presente, eu desistiria da caminhada, pois minha visão tem sido ofuscada pela névoa. Há dias em que não enxergo um passo a minha frente, e tenho que fazê-lo no escuro. Por que tenho que passar por tudo isso? Talvez não seja essa a pergunta que deva ser feita, mas... o que devo aprender com tudo isso? Pois não devo estar neste deserto por acaso. Sim, um deserto escuro e triste... no meio de uma cidade! É uma selva de pedras, feita de gente de cera... E eu atravessando essa selva, sozinha em meus sonhos e meus ideais.”

A solidão foi minha companheira, pois não há quem seja capaz de compreender uma pessoa na berlinda entre a sanidade e a loucura. Estive exatamente nesse lugar, entre uma e outra. Olhava para mim mesma e não me reconhecia, minha personalidade completamente alterada – antes alegre e sociável, agora silente e reclusa. Obviamente havia algo de errado comigo. Mas como eu poderia dar meu próprio diagnóstico? Pacientes psíquicos não são capazes de fazer isso, mas enviam seus sinais em códigos, a serem decifrados pelos bondosos e atentos amigos. Os meus não ficaram para ver os resultados. Fugiram diante dos primeiros sintomas. E de longe, onde estavam, davam os seus palpites: anti-social. Neurótica. Desajustada. Controladora. Claro que essas dicas preciosas do mal que me acometia eram transmitidas no melhor estilo telefone-sem-fio, como naquela brincadeira que a gente brincava na escola, e a frase chegava do outro lado totalmente alterada. Recebi todos os diagnósticos possíveis entre cochichos, mas ninguém teve a brilhante idéia de levar-me a um especialista.

Um registro, feito no meio de uma de minhas muitas madrugadas de insônia, relata: “As músicas que ouço de fato assustam os fantasmas de minha madrugada! Eles me acordam para brincar comigo, mas eu os afugento com a melancolia que sinto... Nem eles se sentem à vontade para permanecer ao meu lado! Cada música que ouço é um grito de desespero do fundo da alma, que flui porém com poesia... As músicas expressam meu apelo mais secreto por compreensão. Mas quem as escuta? Ninguém. A essa hora todos dormem. Quem ouve meu desespero disfarçado de poesia? Todos dormem... agora e em todas as horas. Ninguém ouve.”

Queriam que eu dissesse com todas as letras: sinto-me enlouquecendo. Eu disse, tantas quantas vezes pude, da maneira que conseguia. Adélia Prado fala de um ‘bloqueio literário’ em sua temporada no deserto. O meu foi um ‘bloqueio social’, eu não conseguia me expressar, falar claramente de meus sentimentos para as pessoas. Não posso culpá-las, não poderiam saber que um distúrbio involuntário afetava minhas ações e reações. Mas aprendi com minha triste experiência que as pessoas julgam demais e amam de menos, num momento em que julgamento é inútil e amor se faz extremamente necessário.

Muito há que dizer sobre esse período, os registros estão guardados e no devido tempo serão publicados – são as minhas ‘cartas para o futuro’. Não cabem agora. E sim o verdadeiro diagnóstico, feito por um profissional, quando eu finalmente consegui verbalizar minha agonia: transtorno da ansiedade generalizada, ocasionado possivelmente por uma situação comum de estresse, em função de muito trabalho, para o qual foi administrado tratamento errado. A medicação, prescrita por especialista no ano anterior, ao invés de amenizar, acentuou a ansiedade, que dentro de algum tempo evoluiu para síndrome do pânico. Nessas condições estava eu, a alegre e jovial estudante universitária de poucos anos antes. Condenada ao absurdo das doenças mentais, ditas sem cura. Realmente sem cura? Nesse momento de minha vida aprendi que fé não existe para evitar nossa passagem pelo deserto, mas para garantir o caminho de volta.

Foi isso o que fiz: comecei a trilhar o caminho de volta. Eu sabia o ponto em que estava, avançar ou retroceder agora era uma decisão minha. Decidi conhecer-me, ver de longe quando as ‘crises’ se aproximavam, identificar os ‘sinais’. Funcionou. Vencida a primeira etapa, eu precisava aprender a contorná-las sem me deixar atingir por elas. Fui atrás das possibilidades e descobri que, no meu caso, nada era mais infalível do que executar, na hora exata, técnicas de respiração! Assim eu driblava a ansiedade e impedia que meu cérebro emitisse o alerta típico do pânico em situações imaginárias de perigo. Aprendi o autocontrole e o autodomínio, e com o exercício constante eles se converteram naquilo que chamamos de equilíbrio.

Quem sou eu hoje? A universitária alegre e jovial de outrora, amadurecida pelas experiências da vida. Sou feliz e tranqüila, quem me conhece sabe disso.  Nunca mais experimentei as sensações do deserto, elas se tornaram meu ‘pretérito imperfeito’. E se alguém precisa de provas científicas de meu atual estado psíquico, basta informar que fui aprovada com média superior no exame psicológico que prestei para obter a Carteira Nacional de Habilitação, conferidos a mim 5 anos de exercício sem necessidade de renovação do documento; além do valioso atestado de aptidão após psicoteste realizado recentemente em concurso público, no qual fui integralmente aprovada. Sem cura? E quem precisa de cura nessas questões psíquicas, havendo sido alcançado o equilíbrio?

É preciso coragem para abordar diretamente esse assunto, tão delicado e até mesmo polêmico. Poucos assumem o estado em que chegaram psiquicamente, eu contudo faço isso na tentativa de levar uma luz aos que por ventura se sintam presos num mundo que não é o seu, em um deserto solitário e triste. Não posso julgar outros casos, somente apresentar o meu relato pessoal juntamente com meu testemunho de que estive no deserto, mas saí ilesa dele. Eu sei que isso é possível. Sei que autoconhecimento, firme poder de decisão e fé consistente são fundamentais. Muitas vezes auxílio profissional ou clínico e tratamento adequado.

Após tanta dor e tormento mental, alegria genuína é  minha recompensa: sou feliz sem fazer esforço. Olho para trás como quem, em pleno verão, se lembra dos dias de inverno. Eles existiram, mas hoje não têm o poder de provocar em mim a sensação de frio. Emocionalmente, sou como uma gaúcha que migrou para o nordeste brasileiro: deixei o inverno para trás e desde então experimento a agradável sensação de ter verão o ano inteiro.

Suzy Rhoden
Gravataí, 12 de agosto de 2011







6 comentários:

  1. Gente de CERA... Exatamente isso é o que existe nos dias de hoje, mais no que em tempos atrás. Acho que hoje há um comando: temos de ser todos iguais, nos vestirmos iguais, pensar igual e assistir a tudo que todos assistem. Não temos mais escolha. Penso que nos tornamos um exército e que devemos marchar na mesma direção, a não ser que aguentemos a punição.

    É difícil o respeito pelas diferenças. A moda dita tudo, o vestir, o pensar, o agir. E pra sair desta, amiga, só dando uma de louca! Chutando o balde, fazendo imperar nosso pensamento e nossa vontade. Muitas de nossas doenças são causadas por não aguentarmos seguir a boiada, ou de segui-la. O exercício que temos de fazer para que prevaleça um ser único, que somos cada um de nós, é violento. É estressante. Mas é a solução para que podemos viver melhor e plenamente em coisas que acreditamos.

    Digo sem medo de equívocos que o ser humano é estressante, egoísta e ditador. Se entrarmos nessa, tudo será maravilhoso - mas não para nós. E isso tudo se dá bem pertinho: começa na família – que seria o lugar de maior proteção. Mas é o lugar onde inicia-se as maiores agressões, com exceções, é claro. É irmão contra irmão, filhos contra pais, primos, tias, cunhadas... E depois, dê-lhe terapia nos anjinhos...

    Ótimo seu texto, Suzy.
    Um beijo, amiga.
    Tais Luso

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  2. Suzy, você escreve de uma forma que revela sua alma. Isso é o que dá estrutura ao texto e faz com que a gente sinta sempre vontade de voltar por aqui.

    Beijos

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  3. Há experiências que temos que passar e que ninguém pode passar pela gente nem que estendam generosamente as mãos.
    Esta fase desértica só lhe fez crescer, mesmo que deixando sentimentos e lembranças não tão bons.
    Cada um é ímpar e mesmo que tente se massificar, colocar as pessoas todas num balaio só, mesmo assim ainda todos nós seremos particulares e mostraremos estigmas próprios de cada um.
    Eu acredito que em desertos há oásis e eles nos alimentam,mesmo que somente pelos olhos.
    Linda narrativa pessoal.
    Abraços

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  4. Olá Suzy! Vim retribuir seu carinho e me deparei com este texto que caiu com uma luva nesse período pelo qual estou tentando sair..."Os meus dias no Deserto".Com o falecimento do meu pai entrei neste deserto, perdi a vontade de tudo, fazia as coisas necessárias mas minha verdadeira vontade era não fazê-las.O que tem me salvado? O Senhor, os amigos,meu esposo, meus filhos,meus alunos do seminário, mesmo sem perceberem todos estes têm me ajudado grandemente...
    Estes dias passarão com certeza, eu sei...
    Obrigada por compartilhar e pela visita que de acaso não tem nada e me ajudou a me entender melhor, pois é bem mais fácil quando sabemos que outros passaram pelas mesmas dificuldades e superaram.
    Beijos e um ótimo final de semana!
    www.escolhendoamelhorparte.blogspot.com

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  5. Cara Suzy,
    do blog de uma aminga, não por acaso - creio-, vim parar nestas belas páginas. Lendo seus "Dias de deserto" me vi retratado de certa forma. Meus motivos são outros, mas não menos dolorosos. E assim como você, faço questionamentos:
    "Onde encontro forças? Por que tenho que passar por tudo isso?"
    Também sei que há dias de névoa e dias de total escuridão. Mas sem dúvida, a grande pergunta que devemos fazer é: "mas... o que devo aprender com tudo isso?"
    Posso não saber o motivo de tal provação, mas certamente acredito que isto irá contribuir de alguma sorte para meu crescimento mental, intelectual e espiritual. Assim como sei que ajudou você a se fortalecer. E o interessante é que através das palavras também encontro uma catarse para os fantasmas que assombram meu porão. Torço para chegar logo a um lugar melhor... um dia de sol!
    Meus parabéns e um grande abraço, Moran

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  6. Nossa, amiga, foi sob forte emoção que li seu relato!

    Meu marido passou por uma situação semelhante e eu tive que literalmente estudar sobre as doenças psíquicas para poder ajudá-lo... Felizmente percebi logo que ele precisava de ajuda profissional. Aprendi muito, e agora mais ainda da sua lucidez (mesmo em meio a sua suposta loucura!)

    Nessa época achávamos que doenças psíquicas tinham que ter um motivo, um culpado, tipo um ‘bode expiatório’, pois assim ficaria mais fácil entender. Eu me perguntava o que havia acontecido... Tínhamos e sempre tivemos uma vida ótima! Uma família unida, perfeita, pontuada com amor, respeito, cumplicidade... E financeiramente, mais do que precisamos...

    Depois de uma maratona, de médico em médico, um muda-muda sem fim de remédios, psicoterapia e etc., ele finalmente voltou ser o mesmo de antes. Eu sempre estive presente nas consultas e foi nos explicado que não há motivos, não há pressões psicológicas da vida moderna, nada disso, e sim um desequilíbrio de substâncias químicas no cérebro, enfim, uma doença como outra qualquer. É de difícil diagnóstico porque a dor não é física é na ‘alma’... Nunca mais me esquecerei dessas palavras que nos foi dito por um médico profissional de grande gabarito, mas com um lado humano incomparável!

    Quando meu marido entendeu isso plenamente, a cura começou a aparecer. O apoio incondicional de toda nossa família foi fundamental no processo de “cura”, com aspas, pois vários médicos não acreditam nela, mas nós acreditamos com toda fé que possuímos. Sei que aqueles que não têm fé contestam, são pessimistas e enxergam o “meio copo vazio” e não o “meio copo cheio”, como nos foi dito por uma pessoa que se tornou muito importante na nossa vida.

    Vc teve essa capacidade, movida por sua fé, não tenho dúvidas...

    Quanto às pessoas que te julgaram, não compartilhavam da mesma fé, aposto! Não tinham a mente treina “à base da sabedoria maior”... Pessoas assim são incapazes de decifrar as mensagens em códigos do coração, e não entendem quando alguém parece “mudada”, "estranha"... Partem logo para fofocas maldosas, pra elas um prato cheio em vidas vazias... Mas vc fez bem em perdoá-las com sua nobreza de alma, meus aplausos também por isso!!!

    Um grande beijo amiga, e saiba que fiquei muito feliz em saber que vc superou tudo!

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