quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Abrem-se livros, e surgem os caminhos...



Vivi momentos de introspecção nos últimos dias, lendo muito sobre muitas coisas.

É interessante, a leitura  me leva  por novos caminhos, acrescenta saberes, imagens, paisagens. Não canso de me deslumbrar com um Brasil que até então não tinha conhecido, por exemplo, com seu povo e sua história, sua cultura, sua tradição. Outras vezes, vou ao exterior, falo novas línguas, conheço nova gente... Tudo tão diferente daqui, do meu país, e ao meu alcance: nada além do folhear de algumas páginas ou do navegar por outros mares, via internet.

Saboreio essa experiência, vou realmente além do saber, transformo tudo em vivência. Sinto aquilo que leio. Choro emocionada, outras vezes me indigno. Faço ares de chocada, impressionada, extasiada! Depende da qualidade da aventura...

Confesso que às vezes desisto do passeio, porque ele não vale a pena. Afinal, ser sedento e ávido por conhecimento não significa aceitar tudo: muito pelo contrário, pessoas com essa especificação tornam-se muito mais exigentes. Gosto do novo, mas não tolero a vulgaridade. Se o trajeto me leva para o que é medíocre, tenho a coragem de fechar o livro. Sou cuidadosa com minha mente, uma vez que vivo tudo que chega até ela: evito que seja utilizada como depósito de lixo.

Recentemente, me embrenhei pelo sertão, junto com uma ‘caravana do bem’. São os voluntários do Instituto Brasil Solidário, representados pelo Dr. Wolber Campos em seu blog Crônicas de um Brasileiro. Não sei explicar o quanto seu trabalho de amor, junto com sua equipe, preencheu meu coração. A palavra ‘preencher’ cabe muito bem, de fato, pois é esse o sentimento. Como se antes houvesse uma lacuna, algo ainda em branco dentro de mim. Já não há. Vivi com eles a alegria de servir o povo brasileiro, nos lugares mais remotos. Entendi algo que só quem empreende semelhante viagem consegue captar: população desprovida de certos recursos não significa, exatamente, população pobre ou infeliz. Vi alegria nas fotos, uma alegria que saiu da tela e se projetou em cheio sobre mim. Um povo sofrido, sim, sob certos aspectos, mas que muitas vezes vive a vida com muito mais sabedoria do que eu, metropolitana, priorizando o contato com a natureza e a presença real (e não apenas virtual) dos amigos e da família.

De fato, a leitura me leva por novos caminhos. Mas às vezes também me leva de volta a estradas já percorridas... Ah, como é bom ler algo que me faça sentir saudades! Um bom livro sempre  nos conduz por lembranças, proporciona reencontros, traz de volta os elos perdidos no tempo e na distância...

Por isso leio. Leio muito. Leio sempre. Quero rever amigos nas páginas de um bom livro! E brincar de novo como brincava quando era criança. Faço isso exatamente quando leio, e curioso, a brincadeira ainda tem o mesmo gosto e até o mesmo cheiro! Mas explicar isso é complicado, não vou tentar fazê-lo... Afinal, um verdadeiro leitor sabe exatamente sobre o que estou falando e dispensa minha explicação.

O mesmo blog já mencionado me levou de volta a um lugar amado, uma cidade chamada Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Trabalhei lá como voluntária em uma missão religiosa, cujo propósito era tornar as coisas em que acreditamos conhecidas de toda população, mas antes de tudo servir  essa gente, assim como serviu a todos o nosso exemplo perfeito, o próprio Salvador Jesus Cristo. Essa era nossa missão.

E num desses dias inspirados, quando recebemos novos colchões para nossa casa de missionárias, tivemos o desejo de levar um dos antigos colchões para uma família, composta por uma mãe e seis filhinhos menores de oito anos. Pouco sabíamos de sua história, eram há poucos dias nossos conhecidos. Mas que importava? O colchão lhes serviria bem, tínhamos certeza.

Ao chegar a casa, encontramos apenas o filho mais velho com alguns de seus irmãozinhos, a mãe saíra mas logo retornaria. Tivemos a idéia de surpreendê-la, organizando a casa para aquela atarefada mãe, já deixando o colchão no seu devido lugar e a cama feita. Mas que surpresa tivemos nós! Não havia colchão naquela cama, nada além de alguns papelões, sobre o qual as crianças dormiam. Partiu-se nosso coração! E com lágrimas terminamos nossa tarefa, deixando tanto quanto conseguimos aquela casa mais alegre e harmoniosa.

Pouco depois, retornou a mãe. Os filhos, todos felizes, sentados sobre a cama, onde ela também se sentou, para ouvir o hino que cantamos para eles. Havia lágrimas em todas as faces, mas também sorrisos!

E isso ainda não é o fim da história: condoída pela chegada dos dias frios, a mãe não suportou mais ver os filhos dormindo sobre papelões e foi à casa de um familiar solicitar um colchão, naquele dia, naquele horário. O dono da casa, que tinha um colchão sem utilização, negou a doação ou mesmo o empréstimo justificando que nunca se sabe quando chegarão as visitas. E a mãe voltou triste para casa.

Quem, senão aquele que naquela missão representávamos poderia ter feito o milagre e nos inspirado a levar o colchão para a família? Todos tivemos, naquele dia, a certeza de que existe um Deus e um Salvador, Seu filho Jesus Cristo. E Eles olham por nós, ouvem nossa súplica e providenciam socorro a seu tempo. Nem todos os leitores desta crônica compartilham dessa crença, eu sei. Mas o que senti e o testemunho pessoal que recebi da presença divina naquele momento é algo que permanece dentro de mim, independente do que os outros, neste mundo democrático, pensam ou sentem.

Agora sim vem o fim da história: vivi tudo isso outra vez. Lendo. Sendo remetida a lembranças doces, comoventes, inesquecíveis. Sentindo a mesma emoção daquele dia. Ah, o que seria de mim sem os livros?! Realmente pobre e desprovida de qualquer recurso que uma pessoa precisa para viver.

Suzy Rhoden
Gravataí, 31 de agosto de 2011

domingo, 28 de agosto de 2011

Relação Homem X Animais




Tenho a impressão de que, em conformidade com minha proposta pessoal de servir de testemunha de meu tempo e de minha sociedade, são os assuntos que me escolhem, e não eu a eles.  Alguns, neste momento, gritam em meus ouvidos sua  relevância e ainda que eu  desejasse ignorá-los, são tão prementes que seria impossível  não lhes dar voz. Eles falam por  si, e empresto meu espaço neste texto para que dêem seu recado.

Refiro-me a esse ser, dotado de racionalidade, mas com pouco uso prático da  mesma, que é o ser humano.  Bem, não posso  ser leviana e afirmar que o ser humano não usa seu raciocínio. Ele utiliza, de maneira dissimulada maioria das vezes, e para seu próprio benefício. Para criar maravilhas tecnológicas, úteis não exatamente ao  seu  semelhante mas a si mesmo, considerando o retorno financeiro. Para levar vantagem nas mais diversas situações.

Falo de outros seres também, não dotados de racionalidade. Mas não parece muitas  vezes justamente o inverso: que nossos animais pensam e sentem mais do que os humanos? Que são incapazes de trair ou atacar sem serem antes atacados, ao contrário da espécie que intenta sujeitá-los?

 Planeta dos Macacos: A Origem, que estreou na sexta-feira aqui no Brasil, trouxe exatamente essa idéia. Abordou de maneira brilhante a relação do homem com os animais, e a intenção de cada um nessa relação. Confesso que senti vergonha de minha espécie!  A história de César, o primeiro símio inteligente, encontrou terreno fértil em minha mente: fiquei imaginando o que aconteceria se, cansados da injusta sujeição, animais de todas as espécies se rebelassem contra o homem...

Com a expressão ‘injusta sujeição’ refiro-me especificamente aos maus-tratos. Lembrando que considero maus-tratos práticas como as touradas, as rinhas e as festas de peões, cujo fundamento é levar o animal à ira, dominá-lo nessas condições para consagração daquele que o sujeitou. Sinceramente, que mérito pode haver aí? Gostaria muito de ver um César despertar num galo ou num touro em um momento desses, como vi ontem na ficção. Mas o que vemos são animais antes inofensivos, agora feridos e encolerizados. E chamam isso de festa?! Quanta atrocidade em nome da cultura e da tradição...

Engana-se quem pensa que estas são palavras de uma extremista. Sou a típica cidadã comum, normal, porém consciente. Acredito que muito se revela do caráter de um homem no modo como ele trata os animais. Se não respeita um ser irracional e indefeso, o que poderá fazer  contra  seu semelhante quando contrariado, quando frustrado?

Felizmente, assim como o símio César tinha o cientista Will Rodman a seu favor no filme mencionado, uma multidão de ativistas em ONGs de proteção aos animais ou mesmo civis em ações isoladas e individuais me fazem acreditar no ser humano. Parecem ser a minoria diante de tanta maldade evidente, mas fazem a diferença para cada ser dos quais se aproximam. Deixam seu rastro de amor, um amor capaz de amenizar ou até mesmo apagar toda a  dor de um animal ferido, perdido ou cruelmente abandonado. Por esses, ainda se  faz possível um voto de  confiança à humanidade,   pois  são  os  representantes mais  dignos de nossa espécie.

Concluo com a   história verídica de um  herói: meu cachorrinho Urso. Nunca esquecerei do olhar bondoso que lhe rendeu o nome, nem da atitude heróica que lhe custou a vida. Todas as manhãs, meus pais e eu descíamos para o estábulo onde fazíamos o serviço de ordenha das vacas. Assim que acordava, meu irmão caçula, 3 anos, fazia um trajeto rotineiro para nos encontrar. Não foi assim naquele dia, e nunca mais teria sido dessa maneira se não fosse a interferência corajosa de Urso que saltou sobre a cobra que esperava meu irmão no meio de seu caminho. Urso foi picado, e meu irmão preservado.

Foram apenas algumas horas e nada pudemos fazer para salvar nosso Urso. Ele partiu diante de meus olhos inconformados, porém sinceramente gratos. Pensei que eu nunca mais fosse capaz de ter outro animal de estimação depois dele. E de fato nenhum outro foi como ele, pois eles também são únicos e insubstituíveis – não vêm um  para ocupar o lugar do outro simplesmente. Minhas lágrimas por Urso deslizam até hoje, toda vez que me lembro. E estou lembrando nitidamente agora...

Eu poderia esperar a mesma atitude de um ser humano? Claro que não. Nosso problema é que somos racionais. Demais.

Suzy Rhoden
                      Gravataí, 28 de  agosto de 2011                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Infância Roubada



Interessante como um incidente qualquer atravessa nossos olhos e cria um texto em nossa mente, em questão de segundos!

Estávamos Arthur e eu, nesta manhã, aguardando nosso horário para receber da professora o parecer pedagógico trimestral. Outros pais esperavam do lado de fora da sala, acompanhados de suas crianças. A interatividade entre os pequenos não contagiou a nós, adultos, permanecendo cada qual mergulhado em seu universo particular -  certamente reclamando em pensamentos daquele tempo solicitado pela escola bem no meio do que seria uma manhã produtiva de trabalho.

Como a pedra lançada em águas profundas de devaneios foi o grito de meu filho recepcionando o colega preferido, que chegava na companhia do pai. Ainda estavam na rampa de acesso quando ecoou nas mentes assoberbadas dos pais o convite espontâneo e feliz de um menino ao outro para a brincadeira. E lá se foram os dois alegres a correr pelos corredores, brincar de múmia e létis, saltar degraus das escadas... Saltar o quê?!

Acabou a brincadeira. Mas não foi em virtude do perigo, afinal era um único degrau a ser saltado, tarefa fácil para meninos hábeis de 5 anos. Foi para que a roupa do coleguinha de meu filho não sujasse – aliás, a roupa antes impecável já apresentava indícios de contato com a escadaria, motivo pelo qual o menino foi repreendido pelo pai. E não apenas repreendido, mas sacudido, para que não restasse qualquer vestígio do pó do local.

Incentivada pelo pai resoluto a minha frente, ergui-me com o intuito de também censurar meu filho e orientá-lo para melhor escolha de brincadeiras.  Mas não pude fazê-lo. Meus olhos atravessaram instantaneamente os umbrais do tempo e vi a criança que fui um dia. Em minhas roupas não se percebia o pó da escadaria, mas os respingos do barro com o qual eu fabricava meus bolos de faz-de-conta. Saltar degraus? Não, minhas amigas e eu preferíamos a aventura de deslizar pelos barrancos da zona rural sentadas sobre papelões. Com freqüência o papelão se perdia pelo caminho, o que para nós tornava a brincadeira ainda mais engraçada.

Certamente as mães não viam a mesma graça na hora de lavar aquelas roupas. Mas agiam com mais tolerância às nossas brincadeiras do que as mães modernas. Não falo de outras mães, falo de mim mesma e de minha progenitora. Tive tempo e espaço para ser criança, explorei cada labirinto desse mundo encantado que é a infância. Buscando nas recordações, encontro muitas aventuras e poucas interferências. Talvez porque, naqueles tempos, fosse mais cômodo aos adultos que fôssemos mesmo crianças e não nos metêssemos em seus assuntos. Hoje fazemos o contrário, além de interferir a todo instante em suas brincadeiras, exigimos de nossos pequenos que sejam adultos em miniatura. Para quê?!

Acredito que fazemos isso sem nem perceber. Como o pai que inspirou esta crônica. No esforço de poupar estragos na roupa, criou um rombo no mundo da imaginação de seu filho e de seu amiguinho. Como se eles fossem pescados subitamente de seu oceano de faz-de-conta e largados, sem maiores explicações, no mundo chato e regrado dos adultos. Será que lugar de criança é mesmo em ‘terra firme’? Se não é, por que cometemos a atrocidade de roubá-los de seu mundo de sonhos tão logo começam a sonhar? Depois questionamos o comportamento de nossos adolescentes, passivos, apáticos diante da TV ou do computador. Não seria de estranhar uma resposta do tipo: “Qual o problema, papai? Ficar sentado não suja e nem estraga a roupa!”

O fim da história dos meninos, nesta manhã, é coisa previsível: sentados, contando piadas um para o outro. Mas não gargalhavam ao final – quem faz isso é adulto – mal terminavam uma, emendavam a seguinte, sem nem entender direito aquelas coisas decoradas. Os pezinhos inquietos batendo no chão, os dedos tamborilando a cadeira que os prendia. Queriam correr, brincar, pular, gritar, viver.

E eu pensando com meus botões: o que há de tão errado em ser criança quando se é criança?! Os adultos crescem e desaprendem a viver. E querem obrigar as crianças a abdicar de seu direito também.

Suzy Rhoden
Gravataí, 24 de agosto de 2011


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Concursos, provas, testes e afins.




Eles acompanham a vida de todo ser humano, desde quando a inocência é perdida com o ingresso na escola. Ali começam nossos testes, que evoluem para provas, transformam-se no bicho-papão do vestibular e, depois de nós graduados e especializados, múltiplos são seus nomes para melhor se adequarem a nossa escolha profissional: entrevista de emprego, concurso público, defesa de tese.

O fato é este: em cada fase da vida estaremos sendo avaliados, tendo que provar nosso conhecimento adquirido. Mais do que isso, temos que provar que mesmo sob pressão não somos abandonados por um conhecimento fujão – o famoso ‘branco’ nas horas mais impróprias – mas que somos capazes de administrar nossas emoções sem que o conhecimento requerido nos falte.

Minha lembrança mais remota de um teste me leva para o que era a segunda série na época, em meus 7 anos, na escola rural onde fui alfabetizada. Não lembro de uma palavra sequer da avaliação, mas tenho vívida a imagem das carteiras rigorosamente enfileiradas; a professora à frente com ares de general, esforçando-se por esconder o sorriso tão fácil em seu rosto em dias normais. Precisava mostrar para a classe que aquele não era dia de brincadeiras. Na fileira paralela a minha, exatamente ao meu lado, estava minha prima Judite. Esse foi meu azar!

Terminado o teste, colori o patinho que decorava a página de atividades, e claro que precisava exibi-lo para minha prima Judite, como num concurso sem palavras para decidir quem havia feito o melhor trabalho. Fui pega no flagra apresentando a prova para minha colega! Bem, não era a prova, e sim o patinho, mas que argumentos teria uma menina de 7 anos contra o olhar reprovador da professora decepcionada? Fiquei arrasada. Abaixei minha cabeça e tomei uma decisão: eu nunca mais seria censurada pelo mesmo motivo em minha vida. Concluí a faculdade livre da vergonhosa acusação de obter boas notas por haver recorrido à cola. Graças ao patinho!

Cresci sem traumas com os testes – na escola ou na vida. Percebi bem cedo que estamos sempre sendo provados, e tratei de me preparar. Quando utilizo a palavra ‘preparação’, refiro-me especialmente à capacidade de driblar a pressão natural nessas circunstâncias. Quem disse que falhamos quando não conseguimos a nota mais alta em uma prova? Ou então que perdemos a oportunidade de nossa vida quando fomos eliminados em um processo seletivo? Ou quando nosso nome não consta na lista de aprovados para determinado curso no vestibular? O que parece ser uma falha pode ser apenas uma curva em nossa rodovia profissional, ou uma vírgula na história que de fato  algum dia escreveremos.

Lembro-me de minha primeira nota na prova teórica de redação, na faculdade: não alcançava a média. Logo depois veio a prova prática, e obtive nota 10 e os mais rasgados elogios da professora. Não demorou até ela própria chegar a uma conclusão: “você tem um estilo particular de escrita, que foge às regras e padrões convencionais”. Sugeriu que eu não me deixasse padronizar e assim perdesse  minha peculiaridade. A falha, nesse caso, não era exatamente uma falha e sim uma distinção – o que não dispensava minha obrigação de dominar a teoria, ainda que eu não fizesse uso prático dela. Agi com sabedoria em relação a isso e não tive mais problemas com notas na disciplina.

Posso citar aqui mais do que um amigo que enfrentou um, dois, três, até quatro vestibulares para Medicina! Era o curso que realmente queriam, insistiram diante da sensação inicial de fracasso e alcançaram o êxito ao seu tempo; são hoje ótimos profissionais nas mãos dos quais entregaria meus filhos para que cuidassem de sua saúde, se tivesse a oportunidade de fazê-lo. Injustiçados pelo destino na primeira tentativa, não gastaram vocábulos reclamando ou se lamentando, mas colocaram em prática ano após ano aquilo que a experiência lhes acrescentou em sabedoria e um dia brindaram a alegria dos objetivos atingidos.

Existem, claro, aqueles que surpreendem a si mesmos com a vitória na primeira tentativa. Aconteceu comigo no vestibular. Viajamos de minha cidade natal, eu e um grupo de mais cinco jovens, com o intuito de prestar vestibular na Universidade Federal de Santa Maria. Quatro desses estavam em pânico, porque precisavam ser aprovados. Eu e outro jovem queríamos, mas não nos sentíamos obrigados a conquistar uma aprovação, afinal era nosso primeiro vestibular. Transformamos nossos dias de provas em agradáveis momentos de passeio e turismo, distantes da tensão que tomava conta de maioria dos vestibulandos: eles ocupados com suas revisões, nós com as novidades da cidade, a beleza das montanhas, os novos ares. Preciso especificar quem foram os únicos aprovados desse grupo?

Penso que nosso sucesso nesse caso nada teve a ver com ‘sorte de principiante’, e sim com um modo de enfrentar os desafios que nos possibilitou raciocinar de maneira sensata na hora precisa. A tensão nos rouba essa capacidade. A ansiedade é a grande vilã responsável pelos lapsos de memória – os famosos ‘brancos’. Mas já não precisamos sofrer com ela, pois foi desmascarada: apresenta-se hoje a nossa disposição uma multiplicidade de terapias, desde as técnicas de respiração trazidas pela prática da ioga, até a terapia da exposição, aconselhada no caso das fobias. Para quem não vê a necessidade de investimento financeiro, a sugestão é o investimento de tempo: exercícios simples de inspiração e expiração minutos antes da prova são apontados como milagrosos. Os efeitos são imediatos.

Depois de muito me expor em situações de avaliação, desenvolvi uma teoria: mais importante do que a finalidade pela qual estou participando de um concurso ou seleção é o fato de eu ser participante. Sinto-me grata pelo momento, vivo o instante. Gosto de sentir aquele típico calafrio, a emoção de estar frente ao incerto. Gosto particularmente do sabor de desafio que cada prova traz em si, recebo-as como um estímulo às faculdades adormecidas dentro de mim. Há em tudo a oportunidade de aprendizagem.

Tive esse privilégio no último domingo, fui participante de um concurso público. Em cada face, estampava-se uma reação: o terror, o pânico, a ansiedade. A tranqüilidade, a calma, a serenidade. E eu, atenta a tudo e a todos, quase esquecida de que estava lá para uma prova... não seria para uma crônica?

Bem, não tenho qualquer garantia de que conquistei a vaga única oferecida, mas aqui está a prova cabal de que minha tarde de testes não foi perdida. E assim é com tudo na vida.

Suzy Rhoden

Gravataí, 23 de agosto de 2011

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Em cada desastre, uma arte!



É praticamente uma arte.

Existe uma graça, uma leveza, até mesmo um certo charme. Como se aquele improviso fosse necessário ao espetáculo, porém não poderia vir planejado. Ele simplesmente acontece, na hora exata. E confere toda graça ao show, justamente por ser espontâneo. O público aplaude.

Mas nem sempre é assim tão divertido para o artista, o desastrado nato.

Percebi que havia algo de errado ainda em minha infância. Como se estímulos cerebrais andassem para um lado, braços e pernas para o outro. Por que não se entendiam? Não sei, fato é que enquanto estes últimos protestavam, copos e pratos caíam, espatifavam-se no chão. Desastrado que é desastrado mesmo faz barulho. Tenta consertar. E aí é que aumenta mais o estrago.

Não é um simples ‘cair das mãos’, brusco, seco. Não; é um deslizar quase irônico, suave. Como se o objeto ainda risse antes de saltar de nossas mãos, e fizesse questão de chegar ao chão com todo estardalhaço. A mesma coisa pode ser dita das placas, dos postes e muros que cismam em se posicionar bem a nossa frente. Ou dos buracos no caminho. Ou aquelas portas de vidro, de alto a baixo, que eu chamo de ‘detector de desastrado’!

Bem, na adolescência o drama se confirmou. Numa linda manhã de verão, na praia. Fui, toda bela e sorridente, para a aeróbica com as senhoras da terceira idade. Éramos todos convidados a participar, sem preconceitos. Mas logo recebi uns olhares atravessados das senhoras, e certamente o título nada elegante de ‘atropeladora de velhinhas’. Um fiasco!

Mas não sou de traumatizar com qualquer coisa. Voltei a investir nos exercícios físicos e nos esportes durante a faculdade. Na aula de aeróbica, eu era muito esforçada. Lembrava do episódio com as vovozinhas e dava tudo de mim, até decorar os passos. O problema é que quando eu finalmente conseguia, o professor anunciava: atenção para a nova sequência! E recomeçava meu dilema.

Com o jumping foi a mesma história... Comecei lá na frente, toda animada, bem perto da professora; terminei no fundão, escondida, e de mal com os espelhos.

Tentei certa vez o futebol, e foi muito instrutivo. Para que eu não terminasse o jogo sem encostar o pé na bola, me deram a chance de cobrar uma falta. Eu acho que fiz gol, pois ao final do jogo recebi um elogio: você se sai muito bem com bola parada! Fiquei muito feliz com a observação, pois todos sabemos que futebol é um esporte estático... não voltei aos estádios.

Mas comecei o judô. E nesse me dei muito bem. Tinha a agilidade necessária para render qualquer adversário. Desastrado é assim, é ágil, faz o que tiver que fazer. Mas se tiver que parar no meio do exercício para pensar onde coloca perna, braços, essas coisas, adeus! Tudo sai errado. Nas atividades em aula, eu era um fracasso. Maior chatice contar passos para cá, passos para lá, e então aplicar o golpe. Mas na disputa no tatame, nenhuma moça me vencia! Pelo menos não naquela turma, composta por mim, minha amiga Danni, e os rapazes.

Chegou o momento de obter minha tão sonhada CNH! Exame médico, teste psicológico, prova teórica: gabaritei. Modéstia a parte, sempre fui aluna nota 10. Não seria agora que eu experimentaria a sensação do fracasso, não é? Sim, seria agora. Imaginem o quanto é exigido de um desastrado numa aula prática de direção: olhos à frente, no espelho interno, retrovisor; mãos na direção, no câmbio de marchas, para acionar faróis, piscas, e etc no painel; pés ora no acelerador, ora no freio e embreagem. É demais para uma descoordenada como eu! Em algumas aulas, eu já estava em pânico. Penso que meu instrutor também, revisou todos os seus métodos didáticos e ainda teve tempo e oportunidade para a inovação. E eu  lá, praticando...

Mas como todo desastrado é um artista, na hora certa dei meu show. Não passei na primeira prova, é verdade. Mas então me indignei e fui para o segundo exame com a sede dos perfeccionistas! Comecei o temido teste da baliza e já de início passei dos pontos de referência, tão ensaiados durante as aulas. Erro fatal, e agora?! Tive a impressão de ver, ao longe, meu instrutor sacudir a cabeça negativamente, e aí foi uma questão de honra! Agi como no tatame: sem nem pensar nos detalhes, cheguei para a luta propriamente dita. Ou, melhor ainda, inspirada na última cena de Memorial de Maria Moura, dominei meu cavalo e fui para o ‘tudo ou nada’ contra minhas limitações. Aprovação com excelência, 0 pontos negativos.

É praticamente uma arte. Desperta o riso, provoca o artista e suscita o aplauso. Sempre na hora exata.

Suzy Rhoden

Gravataí, 19 de agosto de 2011






terça-feira, 16 de agosto de 2011

O Pai dos Meus Filhos



Eu adoraria, neste dia seguinte ao Dia dos Pais, prestar minha homenagem àqueles que honram a divina condição da paternidade. Mas isso faço em todos os dias de minha vida, sem a necessidade de um lembrete em um dia especial: busco estar em contato com meu pai, e expressar a gratidão que sinto por meu esposo, o pai dos meus filhos. Penso que isso tem mais valor do que um amontoado de palavras, ainda que ditas com poesia, se não forem comprovadas com atitudes. E um dia apenas não é suficiente para fazer tal demonstração. Por esse motivo, nado hoje contra a corrente de lisonjas aos que merecem, para registrar minha indignação com os que tiveram filhos mas que desconhecem o significado real da paternidade. Aí incluídos homens e mulheres.

Considero sagrado o privilégio de termos filhos. De certa forma, somos co-autores com Deus na criação de vidas. Propomo-nos, nós mulheres, a gerar dentro de nós essa vida, permitir que ela cresça e, no devido tempo, venha partilhar deste mundo triste e cruel, porém necessário para aprendizado e crescimento individual. Sabemos que a vida neste mundo é cheia de ardis, o que deixa clara nossa responsabilidade de cuidar, de proteger. Para isso somos pai e mãe, somos dois - essa é a base familiar tradicional. Temos ambos obrigações em relação a essa criança que está vindo ao mundo, trazida por nós, e sinceramente não consigo engolir essa história de gravidez ‘não-desejada’, pois todo adulto conhece as relações de causa e conseqüência, e, havendo ato sexual, há, por menor que seja, a possibilidade de se trazer um filho a este mundo. Nem de longe cogito a possibilidade de aborto, em situação normal de concepção, pois se para mim gerar um filho é co-autoria com a criação, o contrário só pode ser assassinato.

Nesses termos nascem nossos filhos. Nós os trazemos. Neles, fazemos com que se cumpra a escritura bíblica que diz que seremos uma só carne. Inocentes eles vêm a este mundo, plenos de confiança em nós, seus pais e seus heróis cheios de super poderes. Temos o privilégio de ser vistos assim por eles, sem que precisemos usar uma capa mágica ou voar num cavalo com asas: somos o máximo para eles de qualquer jeito. Até um dos heróis cair do cavalo e, inconformado com sua triste realidade, dar um jeito de desmascarar o outro também: tudo diante dos olhos do filho, que tem sua fantasia roubada justamente naquela que deveria ser a melhor parte da história, a infância.

Que culpa têm esses inocentes dos desacertos de seus pais? Ouvi recentemente os protestos de um casal em relação a ex esposa de um amigo seu. Falavam negativamente de sua atitude, tinham-na como alguém de péssima reputação. Porém logo constatei que o casal nem sequer a conhecia, mas tinha sua visão formada a partir do que o ex, encolerizado, transmitira sobre ela. Por coincidência, eu a conhecia. Sabia muito bem a outra versão, e que para ela o monstro em tempo integral era ele, o ex esposo. Entre eles, um filho rasgado ao meio. Como fica a cabecinha dessa criança, ouvindo horrores ora sobre a mãe, ora sobre o pai? Não é de estranhar o fato de que a criança raramente sorri. Será que seus pais, sempre tão preocupados com seus próprios sentimentos, nunca perceberam isso? Agarrados as suas obsessões, proclamando que sua batalha é pelo direito de serem felizes, passaram como uma patrola por cima dos sentimentos puros e delicados de seu filho e nem perceberam – ou não se importaram.

Outro caso é o de uma mãe, que teve a casa invadida numa noite em que saiu com um amigo. Alguns objetos pessoais lhe foram roubados na ocasião, prejudicando a ela e aos filhos. Fortes vestígios indicam que o autor do roubo foi o próprio pai, provavelmente motivado por ciúme ao ver sua ex saindo com outro homem. E os filhos que paguem o preço. Isso me lembra de outro caso, dessa vez de uma mãe, que foi abandonada pelo marido com 4 filhos, sendo 2 adolescentes e 2 ainda crianças. Os mais velhos abandonaram os estudos, preocupados com a renda familiar, enquanto a mãe... se tornou uma alcoólatra! O interessante é que foi justamente o álcool que separou o casal, uma vez que ela cobrava sobriedade do marido. Mas quando foi a sua oportunidade de agir como tantas outras mulheres, verdadeiras heroínas que se desdobram para, sozinhas, garantirem o melhor a seus filhos, o que fez? Sucumbiu ao mesmo vício que tirou dela o esposo, provavelmente sem perceber que a partir desse momento deixava também de ser uma referência para os filhos que tanto precisavam dela.

Basta de casos tristes. Quem quiser mais comentários no assunto, escolha qualquer telejornal e verá a tristeza estampada em rostinhos infantis, provocada por aqueles que deveriam defender e amar. Mencionarei agora um exemplo sensato de um pai que reconheceu e assumiu sua responsabilidade em relação ao filho, mesmo diante de muitos impasses com a mãe da criança: perguntei a ele porque tinha tanta paciência com ela, que beirava o insuportável em exigências e infantilidades. Ele simplesmente me respondeu: como posso agir de outra maneira com ela, se ela é a mãe do meu filho? Esse diálogo aconteceu há alguns anos, mas guardo a lição. É uma questão de escolha. Se amarmos a nós mesmos mais do que a nossos filhos, não nos importaremos com seus sentimentos, nem com a dor que lhes causaremos. Mas se lhes tivermos verdadeiro amor, haverá em nós a disposição de sacrificar um pouco mais, mesmo quando as coisas ficarem bastante difíceis. Engoliremos palavras amargas e não cederemos ao impulso de arrancar sem aviso as máscaras do herói ou da heroína da vida de nossas crianças.

Meu coração se enche de tristeza por ter que abordar esse assunto. Mas não posso ignorar o pedido de socorro que vejo em muitos olhos infantis, e sinto-me na obrigação de emprestar minha voz a eles. Adultos, resolvam seus problemas, mas não precisa ser na sala de casa, aos gritos, bem diante de seus filhos. Fechem a porta do quarto e conversem. Se optarem por uma separação, um divórcio, façam-no com maturidade, sem envolver seus filhos em seus conflitos, jamais disputando o amor e a atenção deles como se fossem meros participantes de um jogo onde vence o melhor! Eles são seus filhos, não suas armas contra seu ex! E quando forem tentados a difamar aquele que uma vez vocês escolheram para ter como companheiro, lembrem-se de que, antes de sua lista com os piores adjetivos, vem um substantivo: pai. Não é por consideração a ele, mas àquilo que vocês permitiram que ele se tornasse em sua vida: o pai dos seus filhos. 

Suzy Rhoden
Gravataí, 16 de agosto de 2011











sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Os Dias no Deserto...



Quando li sobre um período da vida da escritora Adélia Prado, que ela denomina ‘a temporada no deserto’, pensei: temos algo em comum! Além da cidade de Divinópolis, onde morei durante época memorável de minha vida. Não é dessa lembrança feliz, contudo, que quero falar, e sim de um período amargo, triste e solitário: os dias no deserto.

Como fui parar lá? Está aí algo que eu adoraria saber. Se tivesse encontrado essa resposta na época, teria retornado pela trilha de ida, e encurtado caminhos de dor e sofrimento que experimentei. O fato é que num belo dia acordei só e perdida, esquecida num mundo estranho ao meu, e logicamente meu ‘belo dia’ ensolarado perdeu suas cores e ganhou a tonalidade cinza. Foram muito mais do que algumas horas até compreender o que estava acontecendo comigo. Eu dizia para mim mesma que era apenas um pesadelo e que no instante seguinte eu iria acordar dele e tudo estaria resolvido. Mas não foi assim. O pesadelo se prolongou a tal ponto de eu me perguntar o que era real e o que era imaginário. Eu mesma comecei a duvidar de minha sanidade. Parte de meu registro na época expressa bem o que senti:

“Pergunto-me a cada passo se ainda falta muito para chegar. Sei que a cada passo a distância diminui, e que estou a cada minuto mais perto de meu destino. Mas a questão real é: por quanto tempo ainda terei forças para andar? Há momentos em que um dia é muito tempo. O meu Hoje está muito longo e por vezes me sinto prestes a fraquejar. O que me sustenta? Saber onde quero chegar. Saber que não caminho para ‘lugar nenhum’, mas que tenho um destino certo e pleno de alegrias. Onde encontro forças? Nessa visão do futuro, muito nítida em minha mente. Se dependesse apenas de meu presente, eu desistiria da caminhada, pois minha visão tem sido ofuscada pela névoa. Há dias em que não enxergo um passo a minha frente, e tenho que fazê-lo no escuro. Por que tenho que passar por tudo isso? Talvez não seja essa a pergunta que deva ser feita, mas... o que devo aprender com tudo isso? Pois não devo estar neste deserto por acaso. Sim, um deserto escuro e triste... no meio de uma cidade! É uma selva de pedras, feita de gente de cera... E eu atravessando essa selva, sozinha em meus sonhos e meus ideais.”

A solidão foi minha companheira, pois não há quem seja capaz de compreender uma pessoa na berlinda entre a sanidade e a loucura. Estive exatamente nesse lugar, entre uma e outra. Olhava para mim mesma e não me reconhecia, minha personalidade completamente alterada – antes alegre e sociável, agora silente e reclusa. Obviamente havia algo de errado comigo. Mas como eu poderia dar meu próprio diagnóstico? Pacientes psíquicos não são capazes de fazer isso, mas enviam seus sinais em códigos, a serem decifrados pelos bondosos e atentos amigos. Os meus não ficaram para ver os resultados. Fugiram diante dos primeiros sintomas. E de longe, onde estavam, davam os seus palpites: anti-social. Neurótica. Desajustada. Controladora. Claro que essas dicas preciosas do mal que me acometia eram transmitidas no melhor estilo telefone-sem-fio, como naquela brincadeira que a gente brincava na escola, e a frase chegava do outro lado totalmente alterada. Recebi todos os diagnósticos possíveis entre cochichos, mas ninguém teve a brilhante idéia de levar-me a um especialista.

Um registro, feito no meio de uma de minhas muitas madrugadas de insônia, relata: “As músicas que ouço de fato assustam os fantasmas de minha madrugada! Eles me acordam para brincar comigo, mas eu os afugento com a melancolia que sinto... Nem eles se sentem à vontade para permanecer ao meu lado! Cada música que ouço é um grito de desespero do fundo da alma, que flui porém com poesia... As músicas expressam meu apelo mais secreto por compreensão. Mas quem as escuta? Ninguém. A essa hora todos dormem. Quem ouve meu desespero disfarçado de poesia? Todos dormem... agora e em todas as horas. Ninguém ouve.”

Queriam que eu dissesse com todas as letras: sinto-me enlouquecendo. Eu disse, tantas quantas vezes pude, da maneira que conseguia. Adélia Prado fala de um ‘bloqueio literário’ em sua temporada no deserto. O meu foi um ‘bloqueio social’, eu não conseguia me expressar, falar claramente de meus sentimentos para as pessoas. Não posso culpá-las, não poderiam saber que um distúrbio involuntário afetava minhas ações e reações. Mas aprendi com minha triste experiência que as pessoas julgam demais e amam de menos, num momento em que julgamento é inútil e amor se faz extremamente necessário.

Muito há que dizer sobre esse período, os registros estão guardados e no devido tempo serão publicados – são as minhas ‘cartas para o futuro’. Não cabem agora. E sim o verdadeiro diagnóstico, feito por um profissional, quando eu finalmente consegui verbalizar minha agonia: transtorno da ansiedade generalizada, ocasionado possivelmente por uma situação comum de estresse, em função de muito trabalho, para o qual foi administrado tratamento errado. A medicação, prescrita por especialista no ano anterior, ao invés de amenizar, acentuou a ansiedade, que dentro de algum tempo evoluiu para síndrome do pânico. Nessas condições estava eu, a alegre e jovial estudante universitária de poucos anos antes. Condenada ao absurdo das doenças mentais, ditas sem cura. Realmente sem cura? Nesse momento de minha vida aprendi que fé não existe para evitar nossa passagem pelo deserto, mas para garantir o caminho de volta.

Foi isso o que fiz: comecei a trilhar o caminho de volta. Eu sabia o ponto em que estava, avançar ou retroceder agora era uma decisão minha. Decidi conhecer-me, ver de longe quando as ‘crises’ se aproximavam, identificar os ‘sinais’. Funcionou. Vencida a primeira etapa, eu precisava aprender a contorná-las sem me deixar atingir por elas. Fui atrás das possibilidades e descobri que, no meu caso, nada era mais infalível do que executar, na hora exata, técnicas de respiração! Assim eu driblava a ansiedade e impedia que meu cérebro emitisse o alerta típico do pânico em situações imaginárias de perigo. Aprendi o autocontrole e o autodomínio, e com o exercício constante eles se converteram naquilo que chamamos de equilíbrio.

Quem sou eu hoje? A universitária alegre e jovial de outrora, amadurecida pelas experiências da vida. Sou feliz e tranqüila, quem me conhece sabe disso.  Nunca mais experimentei as sensações do deserto, elas se tornaram meu ‘pretérito imperfeito’. E se alguém precisa de provas científicas de meu atual estado psíquico, basta informar que fui aprovada com média superior no exame psicológico que prestei para obter a Carteira Nacional de Habilitação, conferidos a mim 5 anos de exercício sem necessidade de renovação do documento; além do valioso atestado de aptidão após psicoteste realizado recentemente em concurso público, no qual fui integralmente aprovada. Sem cura? E quem precisa de cura nessas questões psíquicas, havendo sido alcançado o equilíbrio?

É preciso coragem para abordar diretamente esse assunto, tão delicado e até mesmo polêmico. Poucos assumem o estado em que chegaram psiquicamente, eu contudo faço isso na tentativa de levar uma luz aos que por ventura se sintam presos num mundo que não é o seu, em um deserto solitário e triste. Não posso julgar outros casos, somente apresentar o meu relato pessoal juntamente com meu testemunho de que estive no deserto, mas saí ilesa dele. Eu sei que isso é possível. Sei que autoconhecimento, firme poder de decisão e fé consistente são fundamentais. Muitas vezes auxílio profissional ou clínico e tratamento adequado.

Após tanta dor e tormento mental, alegria genuína é  minha recompensa: sou feliz sem fazer esforço. Olho para trás como quem, em pleno verão, se lembra dos dias de inverno. Eles existiram, mas hoje não têm o poder de provocar em mim a sensação de frio. Emocionalmente, sou como uma gaúcha que migrou para o nordeste brasileiro: deixei o inverno para trás e desde então experimento a agradável sensação de ter verão o ano inteiro.

Suzy Rhoden
Gravataí, 12 de agosto de 2011







quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Tradições Familiares




Um fim de semana em família foi o suficiente para relembrar meus planos de adolescente: casar-me, ter muitos filhos, e uma mesa enorme sem lugares vagos, todos ocupados por minha progênie nas datas festivas de Páscoa e Natal. Eu podia ouvir, em meus sonhos, o burburinho dos adultos atualizando as conversas, enquanto as crianças, inquietas, cutucavam disfarçadamente umas às outras por baixo da mesa.

Cresci, casei e tratei logo de garantir a posteridade. Mas o sonho otimista da juventude cedeu lugar ao realismo dos tempos modernos, no que se refere à conversa animada em volta da mesa: tenho a impressão de que verei notebooks, smart phones, iphones, e todo tipo de lançamento eletrônico em ação, fazendo imperar o silêncio no mundo real para que o virtual seja apreciado de forma mais plena. Nem mesmo as inocentes provocações infantis eu penso que verei à mesa, estando cada criança ocupada demais com seu jogo eletrônico para se importar com a presença do primo a sua frente.

Nada tenho contra a tecnologia, sinceramente. Ela veio em nosso benefício. Veio para facilitar nosso acesso aos mais diferentes e distantes lugares, e isso é ótimo. Minha cisma é com nosso entusiasmo excessivo com os eletrônicos, numa espécie de substituição daquilo que é real e presencial. Se soubéssemos conviver em perfeito equilíbrio, esta crônica não existiria. Mas cedemos facilmente aos estímulos virtuais, ao ponto de dispensarmos a conversa face a face com um familiar para nos atermos a um bate-papo com um desconhecido via internet. Esse exagero é que me incomoda e que vem como um ‘balde de água fria’ nos meus sonhos de adolescente.

Estive com minha família no fim de semana. Não nos vemos com freqüência devido à distância entre as cidades e principalmente devido à distância que a sobrecarga de compromissos, de uns e outros, impõe aos relacionamentos familiares. Percebi o quanto corríamos de um lugar para o outro, planejando ver muitas pessoas queridas e fazer muitas coisas divertidas em nossa cidade natal. Um compromisso atropelava o outro, de modo que estávamos na metade de uma atividade já pensando em como executaríamos a seguinte. E assim escorreram pelos vãos de nossos dedos nossas horas de férias, e voltamos para casa com a sensação de termos aproveitado muito pouco. Por que isso? Por que corremos tanto? Por que lutamos contra o tempo ao invés de andar no passo tranqüilo e resoluto dele, se já sabemos que esse é o único meio de fazermos e deixarmos história?

Antigamente, quando recebíamos os parentes, aqueles eram dias de descanso e de férias para todos: família que visitava e família visitada. Um único fim de semana se prolongava e parecia durar uma semana. Eram dias especiais, importantes, estávamos ali uns para os outros. Nossas atividades eram coletivas, interagíamos – o que é bem diferente de um grande número de indivíduos da mesma família desempenhando a mesma atividade de forma isolada. Se essas coisas não acontecem em nossos dias é porque algo se perdeu pelo caminho, e esse ‘algo’ é justamente o elo entre famílias e gerações: as tradições familiares.

Não se trata de coisa extraordinária ou extravagante. As tradições familiares são normalmente as atividades mais simples, desde que sejam transmitidas de pai para filho e perpetuadas pela sua riqueza simbólica. Pode ser o acampamento em família num fim de semana específico. Ou o desfile a cavalo na Semana Farroupilha, celebração tão importante para os gaúchos. A leitura das historinhas para os filhos na hora de dormir, ou o teatro de fantoches. Não importa. Cada família escolhe  sua atividade, de acordo com seus propósitos, e apenas tem o trabalho de repeti-la regularmente para que ela se torne uma tradição. Acredito no poder de união entre membros de uma família que essas tradições propiciam.

Fiz uma tentativa, há alguns anos, de reunir mensalmente a família de meu esposo para encontros programados, com atividades variadas. O projeto foi um sucesso. Até o segundo mês. Quando se tornou necessário real interesse de nossa parte para encaixar os horários disponíveis de cada família, o projeto naufragou. Ninguém parecia disposto a sacrificar os seus planos, ou a priorizar uma tradição familiar na agenda lotada. Infelizmente não dispomos de tempo para ‘gastar’ ao lado daqueles que dizemos que são os nossos ‘entes queridos’. Entes sim... mas queridos até que ponto?

Preocupados com isso, meu marido e eu estabelecemos recentemente em nossa família uma nova tradição: semanalmente realizamos uma espécie de ‘amigo secreto’, que na verdade não é secreto, mas que nos dá a tarefa de cuidar de maneira especial de um membro de nossa família durante os próximos sete dias. As crianças adoram. Percebemos o reflexo em suas ações, pois se esforçam por serem gentis em especial com aquele de quem devem cuidar. As brigas entre eles diminuíram.  Eles sentem-se responsáveis uns pelos outros e esforçam-se por servir da melhor maneira, sendo bondosos e carinhosos, ou então obedientes quando sua tarefa é cuidar de um de nós, seus pais. Sentimos a diferença que essa tradição tem feito em nosso dia-a-dia. A avaliação da semana é realizada numa reunião que chamamos de Noite Familiar. Então somos todos elogiados ou, se falhamos em algo, incentivados a melhorar nossos esforços na semana seguinte, quando teremos novas designações. E assim vamos aprendendo mais uns sobre os outros e desenvolvendo o hábito de servir, de cuidar e de amar.

De volta aos meus planos de adolescente, tenho motivos para sonhar com a mesa enorme repleta de descendentes, todos alegres e interativos. Todos entes realmente queridos. Posso vê-los, posso ouvir seu burburinho agora mesmo...

Suzy Rhoden
Gravataí, 10 de agosto de 2011

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

De Volta ao ‘Trevo do Castelinho’



Considerando a repercussão da crônica que postei falando de prática desconhecida em muitas regiões, mas tão comum em Santa Maria, decidi voltar ao ‘Trevo do Castelinho’ para elucidar a questão das caronas, e claro, fazer o relato de mais algumas de minhas aventuras.

Em primeiro lugar, quero que fique bem claro que pegar uma mochila e uma plaquinha e partir para o trevo no fim de semana é tão comum quanto vestir a roupa de ginástica, um tênis, e partir para um cooper. Não causa estranheza a quem assiste a cena. Não é indicativo de estilo de vida hippie e muito menos de atividades relacionadas à prostituição. Para os estudantes é uma forma econômica e divertida de chegar ao seu destino, considerando que a prioridade dos investimentos financeiros é a própria universidade e a formação que ela propicia. Para que, então, gastar com a passagem de ônibus se o percurso pode ser feito de maneira segura e gratuita? Sim, geralmente há segurança, pois os condutores na região já estão habituados e até mesmo gostam de companhia ao longo de suas viagens. As plaquinhas são fundamentais para isso: feitas no capricho, mostram que aquele jovem tem destino certo e que não é um simples e misterioso aventureiro à beira de uma estrada.

Nessas condições, lá fui eu, certa vez, para os rumos de Bagé, acompanhada de um casal de amigos. Como a viagem é longa, não se esperava conseguir uma carona direta até o destino pretendido. Não lembro da primeira carona, sei que ela nos levou até  aproximadamente metade do caminho. Mas da carona seguinte lembro bem: um caminhão carregado, tão lento que nos perguntávamos se não seria mais prático e saudável acompanhá-lo numa maratona à margem da estrada! Bicicletas nos ultrapassavam seguidamente, o que deixa uma idéia muito clara da velocidade em que o veículo andava. E assim, em marcha de tartaruga, avançamos para a campanha. Se pelo menos fôssemos deixados seguros em casa, à meia-noite, não haveria problema. Mas não, fomos deixados quase nesse horário só que em uma bifurcação da estrada onde, para nosso pavor, não se via vestígios de civilização, nem para um lado, nem para outro.

Tudo bem, exagerei no horário. Era fim de tarde. Mas se fosse meia-noite dava na mesma, quem pararia na estrada para dar carona a um trio desconhecido? Nem sinal de posto de gasolina ou mesmo de alguma casa até onde nossa vista alcançava; somente aqueles campos típicos da região da campanha a se perder de vista. E o sol despencando no horizonte, para nossa total agonia! Finalmente, um caminhão se fez ouvir. Era tudo ou nada. Perdêssemos aquela carona, era certa a noite ao relento. Para piorar meu estado de nervos, meus amigos lançaram para mim a ‘batata-quente’: Te vira, tu que és de nós a mais dramática! Nem tive tempo de contestar, o caminhão se aproximava. Lancei-me no asfalto, de joelhos, e numa posição de súplica fiz a minha melhor versão ‘gatinho do Shreck’. O motorista parou o caminhão e rindo abriu a porta de seu veículo para nós. Aproveitou para me dar uma dica bastante útil: se algum dia cansasse de meu curso na faculdade, poderia tentar seguramente as artes cênicas, pois criativa e convincente em meu teatro ele tinha provas de que eu era.

Nossa carona nos deixou no trevo de acesso a Bagé, tínhamos ainda alguns quilômetros pela frente e já havia escurecido. Colocamo-nos a andar, mas para nossa felicidade o condutor de um buggy parou ainda em nossos primeiros passos, e ofereceu carona até o centro da cidade. Que maravilha de chegada, pensei eu! E como não sou boba, já fui tomando meu assento na frente, enquanto os outros dois se arranjavam com as malas na parte de trás. Fomos a toda velocidade, e eu amando o passeio! Chegamos ao nosso ponto de referência, descemos do buggy e então, surpresa, dei com o rosto pálido de meu amigo e em minha amiga vi a imagem do desespero.

- Divertido, né? – perguntou ela. Sacudi a cabeça afirmativamente, os olhos brilhando de felicidade, o sorriso lá nas orelhas, quando então ela complementou – Divertido pra você, que estava se achando a Miss Brasil lá na frente, só faltou acenar para o povo! – e me explicou que na parte traseira, onde eles estavam, eram arremessados para o alto a cada curva ou lombada do caminho, e sem ter onde se segurar e ainda com as mochilas para cuidar, tinham que torcer para cair de volta em cima do carro a cada vez. Minha amiga que me perdoe, mas essa para mim foi justamente a parte mais engraçada da viagem.

Claro que eles se vingaram. Levaram-me para um tour madrugada afora, nos pontos mais altos da cidade. Em minha pele, eu sentia o vento assoviar de tão gelado, e na mochila apenas roupas de verão. Por que ninguém me avisou que em Bagé faz inverno o ano todo?! Fiquei traumatizada. Até hoje quando alguém me fala que vai lá para as bandas de Bagé, aqui começo a ‘bater o queixo de frio’ – expressão regionalista que para os gaúchos quer dizer que está ‘frio barbaridade’!

Suzy Rhoden
Gravataí, 04 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O Avanço Tecnológico e Seus Efeitos Colaterais

                               

Uma amiga e eu saboreávamos um chimarrão, no melhor estilo gaúcho, e conversávamos sobre amenidades, quando de repente uma cena mudou o rumo da nossa ‘prosa’.  O assunto ficou sério. Passamos a observar a desenvoltura de meus filhos pequenos, todos menores de 5 anos, à frente do computador. Impressionante o domínio que até mesmo a caçula, com 2 anos recém feitos, demonstrava ao lidar com as teclas e comandos. Mas quem pensa que eu observava tudo isso orgulhosa de meus pequenos prodígios, muito se engana: viam-se em minha testa rugas de preocupação. Como lidar com o avanço tecnológico, tendo-o como aliado, sem permitir que ele estraçalhe com a personalidade de nossas crianças e jovens, ainda em processo de formação?

Como pais, representantes da Geração X, somos a verdadeira pedra no sapato de nossos filhos, Geração Y. Atrasamos seu passo, queremos que andem mais devagar, que andem no nosso ritmo. Isso é o que eles pensam e dizem de nós. Sei disso e sinto-me à vontade para falar sobre o assunto, pois, nascida no final da década de 70, oscilo justamente entre uma geração e outra e sinto sobre mim a influência de ambas. Considerando que tenho filhos desta geração a toda velocidade, me autodenomino uma X, por uma questão de equilíbrio, afinal alguém tem que segurar mesmo o ritmo desenfreado dessa garotada. E então afirmo: não somos nós os lentos, eles é que vieram ao mundo com o pé cravado no acelerador!

Os problemas, ou efeitos colaterais desse estilo de vida, já começam a ser percebidos e até mesmo diagnosticados: nos Estados Unidos fala-se em ‘cérebro de pipoca’; expressão que define um cérebro tão habituado aos constantes estímulos provenientes das conexões eletrônicas, que quando se desconecta das relações virtuais, não se acostuma mais com as coisas incrivelmente lentas dos contatos presenciais”, segundo o pesquisador David Levy. Ou seja, nossos pequenos prodígios, se não trazidos de volta ao equilíbrio, serão futuros gênios da informática mas verdadeiras catástrofes nas relações interpessoais, incapazes de determinar a emoção traduzida numa expressão facial, por exemplo. Serão máquinas pensantes e ambulantes, mas frias de emoções, assombrosamente assemelhadas aos robôs.

Parece exagero? Não é o que penso, depois da novidade adotada pelo estado de Indiana, nos Estados Unidos: ensino de letra cursiva passa a ser opcional nas escolas, sendo incentivada a digitação. Logo a moda se alastra pelos demais estados Norte Americanos e então vem de TAM para o Brasil. Voando. Evolução? Não consigo ver assim. Por que o novo tem que  substituir o tradicional, como se fosse o melhor? O novo, nesse caso, será mesmo o melhor? Eis a justificativa de minhas rugas de preocupação. Já é difícil tirar as crianças, em casa, da frente do computador, em suas mais diferentes e modernas versões... Como será quando a escola  utilizar exclusivamente esse recurso de ensino?

Vem  à minha mente o filme A Rede Social e seu famoso e bilionário protagonista, Mark Zuckerberg, conhecido como “o gênio por trás da criação do Facebook”. Eu prefiro meus filhos com alguns bilhões a menos e uma mente sadia para enfrentar  frustrações com coragem e determinação, pois a fórmula para vencê-las e consequentemente experimentar a sensação real de felicidade não existe na versão digital. Nunca existirá.

Suzy Rhoden
Gravataí, 03 de agosto de 2011


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