terça-feira, 24 de outubro de 2017

A Chegada do Bebê do Natal


Síntese de meu relato de parto normal após 3 cesáreas

No dia 20 de abril de 2015 eu soube, através de um sonho, que o presente de Natal daquele ano seria atípico – e o mais incrível de todos os tempos! Teríamos um bebê, mais especificamente o bebê 4 da família.
Não houve susto, medo, relutância. Era comum acordo entre nós, marido e eu, que teríamos muitos filhos – tantos quantos o Senhor quisesse nos dar e tivéssemos saúde para educar e criar. Então o Bebê do Natal, como passamos a chamar, tornou-se bem-vindo desde antes de sequer confirmarmos por exames a sua existência: já era amado e esperado.
Mas havia um problema: o trio mais velho nasceu de cesárea. A primeira, considerada tentativa frustrada de parto normal, foi na verdade uma sucessão de erros típicos da falta de informação: ida precoce ao hospital, antes de entrar em trabalho de parto ativo; impaciência da obstetra para aguardar um trabalho de parto prolongado; indução com ‘sorinho’ (oxitocina); dilatação que não acompanhou o ritmo das contrações após a indução; falta de protagonismo meu, que deleguei tudo à equipe médica e deixei que tomassem decisões cruciais em meu lugar.
A primeira cesárea me conduziu a seguinte, dezoito meses depois, num parto agendado fora de trabalho de parto. Sentenciou a médica: risco incontestável, uma vez cesárea, sempre cesárea. Especialmente em período tão curto entre um parto e outro. Me foi recomendado de modo algum entrar em trabalho de parto, e acatei sem questionar. Dois anos e dois meses depois da segunda cesárea, em outro local, com outra médica, me vi novamente no bloco cirúrgico, tendo minhas 7 camadas cortadas e a bebê arrancada de dentro de mim. Arrancar foi a palavra, pois nunca fui tão desrespeitada como naquele parto, que vivi sem acompanhante ‘porque o hospital não permitia’. Jeferson havia segurado minha mão nas cesáreas de Arthur e Gabriel, mas teve de olhar de longe para sua princesinha Sofia quando veio ao mundo, chorando a plenos pulmões. Um choro forte, ressentido, clamando por aqueles que conhecia desde o ventre, mas no colo dos quais foi impedida de se aninhar por muitas horas. Sequer a mostraram a mim, apenas a levaram, inexistindo a necessidade visto ter ela nascido com apgar 10 e 10. Se nas duas primeiras cirurgias tive atendimento relativamente humanizado, fui respeitada dentro dos padrões para a época e o local, no parto de Sofia conheci de perto a violência obstétrica e traumatizei. Aquilo definitivamente não deveria ser a melhor forma de nascer.
Seis anos depois, chegou o Bebê do Natal aos nossos sonhos. Quarta cesárea, já estava definido. Para tudo, tira o ponto final e bota uma vírgula nessa história: a não ser que eu encontrasse equipe humanizada disposta a me assistir numa tentativa de parto normal. Com 6 semanas de gestação, assim que confirmei os famosos risquinhos no palitinho, fiz a primeira postagem num grupo de mães: alguém aí pode me indicar obstetras que priorizem o parto normal em Porto Alegre ou região metropolitana? Foi dado o primeiro passo de uma longa, extenuante, por vezes desanimadora, mas incrível caminhada.
É difícil pra mim resumir tudo que aconteceu no intervalo entre essas 6 semanas e as 38, às vésperas de meu parto, quando finalmente conheci a equipe que iria me atender. Mas se fosse fazê-lo numa frase, essa seria: impossível, risco incontestável. Foi o que ouvi o tempo inteiro, de todos os médicos aos quais procurei – e o fiz por meio de consultas pelo convênio, consultas particulares, telefone, redes sociais... Colecionei nãos.
Por outro lado, esse período me proporcionou encontro significativo com muitas redes de apoio, sobretudo as virtuais. Formaram-se laços, enquanto me fortalecia como mulher e me preparava para protagonizar o mais intenso momento da minha vida. Claudia, amiga desde os tempos da faculdade, foi aquela que plantou a semente, quando viveu seu vbac dois anos antes. Tão logo me vi grávida, escrevi pra ela, e de São Paulo vieram informações, livros e amor. Logo depois, conheci as doulas Analu e Thaís, ambas essenciais para o desfecho que tivemos. No final, quase às vésperas do grande dia, um encontro com a enfermeira obstétrica Luana Santos definiu tudo numa simples conversa: eu iria parir, ela acreditava e eu também. Pena que ela não poderia me assistir, visto ter a agenda cheia para o mês de dezembro... Mas foi em nossa conversa que recebi a indicação da Dra. Guísela de Latorre, médica humanizada que atende na cidade de Novo Hamburgo. Agendei a consulta para a data que marcava minha entrada na 39ª semana de gestação.
O bom de chegar num consultório médico praticamente parindo é que eles sabem que você realmente quer parir e a essa altura está pronta pra bancar o que vier, e você também sabe que eles só vão te aceitar como paciente se realmente forem fazer teu parto. Ninguém enrola ninguém – porque de enrolação eu já estava cheia, farta.
Então, em meados de dezembro, cheguei barrigudíssima ao consultório de Dra. Guísela, na clínica Obstare. Preciso pontuar a acolhida que tive desde o primeiro telefonema, através das secretárias competentes e simpaticíssimas Julia e Marcy. Também tenho nítido na mente o sorriso de Guísela quando falou meu nome e me recebeu em sua sala. Pequenos detalhes que fizeram toda a diferença àquela altura, para um casal cansado de portas na cara.
Guísela avaliou nosso caso com todos os cuidados, afinal não cai do céu uma maluca solicitando um vba3c todos os dias. Abriu artigos, leu tudo para nós, nos deu ciência dos riscos existentes, avaliou exames até então realizados, solicitou novos exames, exigiu termo de responsabilidade, condicionou o parto à presença de seu esposo, também obstetra, para eventual necessidade de intervenção, e por fim disse SIM!!! Bem... foi o sim mais caro da minha vida, me custou um rim e um olho da cara, mas naquele instante de tudo ou nada, tendo eu batalhado tanto pela possibilidade de parir, topei.
Preciso abrir um parênteses aqui para frisar a total impossibilidade de um parto, sobretudo um parto normal após 3 cesáreas, pelo convênio. Infelizmente o parto humanizado torna-se caro e inacessível para maioria das mulheres, que acaba cedendo à pressão médica e dos familiares pela cesárea – mais prática e econômica (não deveria ser). Minha experiência me mostrou que recorrer ao SUS seria mais viável do que sonhar com um parto dentro das minhas expectativas pelo convênio, e certamente seria minha opção não fossem as 3 cesáreas prévias que me colocavam no bloco cirúrgico do hospital público, de qualquer maneira.
A questão financeira foi resolvida com a ajuda de uma amiga, que me emprestou os valores. Decidimos que eu teria um parto hospitalar, internada pelo convênio no Hospital Regina, em Novo Hamburgo, para onde me dirigiria já em trabalho de parto ativo. Como acompanhantes, teria a doula Thays e meu marido (doula deveria ser parte da equipe, mas infelizmente a maioria dos hospitais a vê e trata apenas como acompanhante).
Em casa, vivíamos os preparativos finais em família. O trio muito animado à espera do maninho, minha mãe já de mala e cuia na cidade para me ajudar e eu com os olhos fitos na troca de lua em pleno Natal... será?! Não carregava a ansiedade que poderia caracterizar um atípico parto normal depois de tantas cesáreas, pois tinha conquistado o apoio incondicional do marido ao longo da gestação, e isso significava muito pra mim. Juntos havíamos alcançado, através de uma bênção do sacerdócio que ele ministrou a mim, a certeza de que tudo daria certo e o Senhor nos abençoaria na travessia de Felipe da vida pré mortal para a mortalidade. Após aquele momento sagrado, nada mais temi, pois a promessa era clara e inequívoca e ressoava o tempo inteiro em meus ouvidos: meu filho nasceria de parto natural.
Chegaram as 40 semanas em 21/12, e nenhum sinal do bebê chegando. Mas na manhã de 24/12, véspera de Natal, começaram as contrações que não me abandonaram mais até o nascimento de Felipe. Eram 5h da manhã quando tudo começou. Passei o dia sentindo fisgadas que nasciam nas costas, mas eram irregulares na frequência e na duração. Saí para fazer as últimas compras de Natal, caminhei, agachei, dancei, rebolei na bola de pilates, fiz tudo que li ser conveniente para um trabalho de parto natural. Mas não engrenava.
Na noite de Natal, a dor intensificou. Marido ficou de plantão ao meu lado anotando tudo e a doula, com quem mantive contato ao longo do dia, entendeu ser a hora de nos visitar. Suas massagens fizeram milagres! Contatamos a médica no meio da madrugada e nos preparamos para os 40/50 minutos até o hospital, mas para nossa surpresa e frustração as contrações, que eram terríveis no carro, praticamente desapareceram assim que cheguei ao hospital. Fui avaliada pelo plantonista, com autorização minha e de Dra Guísela, e para meu desespero havia apenas 1 dedo de dilatação!!! Passei pelo MAP, bebê estava bem e ainda alto. Eu não estava em trabalho de parto ativo e o tão esperado momento poderia demorar a chegar.
Na tarde do dia 25 recebi a visita de Claudia, que acabara de chegar de São Paulo para os festejos de Natal. Encontrou-me bem, com poucas e suportáveis contrações. A noite, porém, não foi tão tranquila... Mas o dia raiou sem novidades. E sem novidades dia 26 teria terminado, não fossem aquelas contrações irregulares que roubavam completamente minha energia e bom humor. Era o terceiro dia ininterrupto de sinais que não engrenavam num trabalho de parto ativo, mas me desgastavam. Thays veio para nossa casa, conforme a solicitamos, e por volta de 21h decidimos ir ao hospital para nova avaliação. Guísela nos esperava no hospital Regina, me avaliou e deu-me a notícia: nada além de 1 dedo dilatado!!! Aquilo era inacreditável, pois há 3 dias dores intensas me acompanhavam e nada acontecia!!! Submetida ao MAP mais uma vez, tive a tranquilizante notícia de que os batimentos do bebê seguiam maravilhosamente bem. Tivemos então uma conversa séria: os pródromos que me acompanhavam podiam durar até uma semana, não havia como prever. Se realmente queria um parto normal, teria que suportar aquela situação. A doutora sugeriu manter-me internada naquela noite, para me acostumar ao ambiente hospitalar e vencer um possível bloqueio. Mas achamos melhor voltar pra casa e aguardar o tempo do bebê, que parecia querer celebrar o ano novo dentro da minha barriga rsrs.
Em casa, dispensei a doula e disse ao marido que dormisse e descansasse, pois há duas noites nenhum de nós conseguia fazê-lo. Decidi-me a dormir também, apesar das dores, pois aquela situação poderia se prolongar por dias, e eu não havia chegado até ali para ser vencida nos pródromos, não faria sentido! Orei ao Senhor por forças, para que conseguisse dormir, apesar das dores que sentia. Então vivi o que chamo de milagre, pois adormeci e tive uma espécie de sonho do qual fui despertada pela contração. No entanto, quando estava prestes a acordar completamente, uma voz em minha mente orientou: aceita a dor que ela passa. Soube que era ajuda divina, a mesma ajuda que tive o tempo inteiro e que me dava a certeza de que no fim tudo daria certo. Segui a orientação, mergulhei em cada contração, sentindo-a profundamente, entregando-me a ela, até que passava e eu continuava adormecida. Depois de duas noites em claro, finalmente, consegui dormir por alguns minutos. Aquele descanso foi providencial, restaurou as forças que eu precisaria para os momentos que estavam por vir.
Então despertei sem chances de voltar a dormir: as contrações eram intensas, doía muito. Me neguei a contá-las, pois havia feito isso em vão por duas noites e isto só elevava minha ansiedade. Levantei da cama e passei a revezar posições já conhecidas: agachada, em 4 apoios, banho morno, sentada, jogada sobre a bola de pilates, banho morno, andando como pata, banho morno, banho morno... depois de algum tempo, nem o santo banho morno resolvia, me senti perdendo a sanidade, enlouquecendo de tanta dor. O ápice se deu ao amanhecer, quando me vi gritando agarrada às paredes do banheiro, me sentindo sem condições de viver aquilo por mais um dia. Era o máximo que aguentaria, cheguei ao limite e desistiria.
7h da manhã peguei o celular e passei mensagens para a doula e para Cláudia. Contei-lhes que não dava mais, iria ao Hospital Conceição para a quarta cesárea. Sem chances de aguentar talvez mais uma semana naquelas condições, eu me entregava. Só que não. Exatamente em meio a mensagem na qual mencionava a desistência do parto normal, senti o líquido escorrer pelas pernas, e logo veio a confirmação: era a bolsa mesmo, havia rompido!!!
Fui ao céu e voltei de tanta felicidade, pois em 4 gestações era a primeira vez que a bolsa rompia espontaneamente, o que certamente era um bom sinal. Era o indicativo que eu precisava de que o bebê estava vindo! Tudo isso na manhã do dia 27/12/2015, um domingo, por coincidência justamente a data de aniversário de Luíza, filha da Cláudia, que nascera em um vbac dois anos antes. Felipe escolheu o mesmo dia da filhinha de minha amiga para aniversariar, estabelecendo entre nós um laço eterno.
Poderia dizer que corremos para o hospital. Mas não foi assim, a maturidade me ensinou que não se corre para o hospital, principalmente em meu caso, para evitar que a chegada precoce conduza a uma cesárea. Havia apenas um agravante: a ampulheta havia sido virada com o rompimento da bolsa, e passamos a ter horas contadas. Ainda assim, bem tranquilos, partimos por volta de 10h. Sem a doula, infelizmente, já que devido a um mau entendido não foi feito cadastro dela no hospital a tempo, e o mesmo só poderia ser feito em dia útil, portanto na manhã seguinte. Uma pena, pois Thays foi muito importante em diversos momentos.
No hospital, ainda precisaria passar pelo teste de fogo: avaliação da dilatação. Que agonia! Olhares postos na Dra Guísela que me examinou e, após eternos segundos, nos deu a mais desejada notícia de todos os tempos: 7 cm dilatados!!!! Uhuuuuuu!!! EU DILATEI, descobri que como todas as mulheres tenho, SIM, a capacidade de dilatar e de parir meus bebês!!!
Lembrei-me de ter lido que a maternidade aproxima a mulher da divindade. Senti isso naquele momento. Senti-me sendo elevada. As promessas que meu Pai Celestial me havia feito de que teria meu filho por parto natural estavam se concretizando – Ele sempre cumpre Suas promessas!
A partir daí, foi pura diversão. Na bola de pilates eu praticamente dançava. Estava sem minha playlist, porque sei lá onde foram parar o pen drive e meu celular com as músicas selecionadas, mas não precisava: notas musicais nasciam de mim, meu coração cantarolava!
Fui levada para a sala pré parto, onde usei o chuveiro livremente, a bola e a banqueta. Fiquei alguns instantes sozinha, enquanto marido cuidava da parte burocrática, mas estava bem, sabia as posições que mais proporcionavam alívio. Em determinado momento, de súbito veio uma contração intensa. Agachei apoiada na cama, sem conseguir falar. Queria Jef ou Thays ali comigo. Mas antes que me sentisse desamparada, vi Guísella se aproximar, agachar e me confortar com voz suave, ao mesmo tempo em que massageava minhas costas com mãos que pareciam ter o calor do fogo. De repente a dor se mesclava com amparo e amor. Aquela dor não era exatamente isso? A passagem para que o amor se personificasse numa nova vida que chegava.
Naqueles instantes finais rumo a dilatação total, em vez de ir quase à loucura como imaginava, sentia-me abraçada e acolhida pelo momento. Não havia violência obstétrica, não havia verticalidade na relação obstetra-paciente, ninguém me censurando por minhas escolhas, nem exigindo silêncio. Havia paz interna e externamente. Havia humanização no real sentido da palavra. Assim, nesse clima, dilatei dos 8 aos 10 cm e senti meu bebê avisando que chegava.
Estava na banqueta quando vieram os primeiros puxos, isto é, aquela vontade involuntária de fazer força. Era outro nível de dor, era a certeza de que meu Felipe estava ali, querendo sair para o mundo de amor que preparamos pra recebê-lo. Jeff chamou a médica, disse que estava nascendo, Guísela veio correndo. Convidou-nos para deslocarmos até outra sala, mas eu não queria ir, sentia o neném chegando e não queria sair de jeito nenhum de onde estava nem eu sei porquê (rsrs). A obstetra me avaliou e disse que ainda não havia coroado, teríamos tempo para andar até a sala.
Amparada por Jeff, cheguei a um local cuidadosamente preparado pra eu dar à luz em total segurança. Não era uma sala de parto normal, como eu imaginava que seria, mas nem percebi naquele momento. Mais tarde, entendi que estava no bloco cirúrgico, com mesa preparada para qualquer intervenção. Em meu braço, acesso para a eventualidade de precisar ser medicada às pressas. Várias pessoas na sala, dentre elas o obstetra Fabiano, responsável pela organização do local, motivo pelo qual eu mal o tinha visto até então: estava garantindo que meu parto fosse o mais seguro de todos. Aquelas pessoas compunham a equipe de enfermagem do hospital, caso evoluíssemos para uma cesárea. Tudo cuidadosamente preparado.
Se fiquei constrangida com toda aquela gente na sala? Eu sinceramente não enxergava ninguém, só queria saber de meu bebê, que estava vindo! Mas senti a vibração positiva daquela equipe, a torcida para que tudo corresse de acordo com meus sonhos mais íntimos.
Lembro de como me senti quando entrei no local: acolhida mais uma vez, respeitada. Fui levada até uma banqueta, posição com a qual já tinha me identificado e de certa forma escolhido para parir. Meu sonho mesmo era usar banheira, mas um vba3c me chamava à realidade, lembrando que a água retardaria a intervenção, caso fosse necessária. Escolhemos ser prudentes.
Jeff sentou-se em um banco atrás de mim, de onde me apoiava e fortalecia. Guísela a minha frente, sentada no chão, com o sorriso mais encorajador deste mundo! Como me fez bem aquele sorriso, cuja mensagem inequívoca era: você vai parir, confio integralmente em ti!
Também recordo do ambiente a meia luz e da música animada tocando ao fundo. Mas que música era mesmo? Não faço a menor ideia, embora na hora tenha adorado e pensado: que bom ouvir esse som! Alguém perguntou: quer que desligue a música? Respondi que não, de modo algum. Queria música, me fazia bem.
Os puxos continuavam, quando vinham eu me agarrava em Jeff e gritava a plenos pulmões. No intervalo entre eles, conversava e recebia orientação, estava totalmente consciente e presente.
Não sei quanto tempo ficamos nessa situação, o tempo inexiste para uma mulher vivendo o expulsivo. De repente, um desejo muito grande de fazer força e o bebê coroou. Estava esperando pelo círculo de fogo, mas essa sensação ficou para o bebê 5, pois não identifiquei a queimação sobre a qual havia lido. Ao invés disso, sentia a presença do bebê e a urgência em fazer força.
Porém, cadê minhas energias? Me sentia fraca diante do tamanho da missão, a cabecinha que estava coroada voltou! Precisei aguardar o próximo puxo e fazer força novamente, para que coroasse outra vez. Mas parecia tudo tão distante no tempo, como se estivéssemos há horas ali e meu neném entalado. Em algum momento, verbalizei que me sentia sem forças, não conseguiria. Fabiano, ao meu lado, estimulou: “ele está aqui, já está nascido! Vamos lá, você consegue!” Guísella conduziu minha mão até a cabecinha dele, senti uns fiapos de cabelos e aquilo me renovou!
Orei ao Senhor, pedi que Ele me ajudasse, proferindo algumas palavras em voz alta. Lembro de ter pensado na Expiação do Salvador Jesus Cristo naquele momento de dor e agonia. Assim como Cristo padeceu para nos dar de presente a ressurreição e vida eterna, sentia-me padecendo por algo maior, pela vida que nasceria do sofrimento de um momento. Tudo, simplesmente tudo valia a pena!
Com tal sentimento, fiz a força mais comprida que consegui, mantendo o esforço até que Felipe veio à luz, lindo de viver! Meu mundo parou, o relógio congelou, as pessoas passaram a se mover em câmera lenta como se estivessem num outro plano, distantes de mim. Só tinha olhos e emoções para meu bebê, meu Felipe, que veio no mesmo instante para meus braços.
Se alguém me falasse em dor, que dor?! Tudo simplesmente desapareceu, transformou-se para sempre. Ao meu lado, Jeff compartilhava da minha emoção. Ele, que foi meu apoio o tempo inteiro, tanto emocional quanto fisicamente. Estávamos extasiados, admirando, cheirando e amando nossa cria! Juntos, em sintonia, na mesma inesquecível emoção, oxitocinados!
Felipe nasceu com uma circular de cordão, coisa que não atrapalha e nem impede em nada um parto normal – inclusive um parto atípico como o meu, após 3 cesáreas. Logo depois, nasceu a placenta. Tão rápido, que não senti qualquer contração, ela simplesmente veio seguindo o bebê. E era enorme a árvore que nutriu nosso garotinho por 40 semanas e 6 dias! Em poucos minutos, parou de pulsar o cordão e coube ao papai a honra de cortá-lo.
Soube então que eram apenas 13h52 quando nasceu Felipe. Pra mim, pareceu uma eternidade, mas o relógio contestou minhas sensações: tudo acontecera num ritmo sensacional desde nossa entrada no hospital.
O parto foi natural do início ao fim, sem nenhuma intervenção. Não houve indução de nenhum tipo. Não recebi e nem sequer pensei em pedir anestesia. Não fui submetida a episiotomia (aquele corte de rotina, totalmente desnecessário). Sofri pequena laceração, embora tenha realizado exercícios preventivos de fortalecimento do períneo, e recebi alguns pontos que em nada me atrapalharam, nem causaram dor posterior – nada que se compare ao desconforto causado pela episio ou cesárea, por exemplo.
O parto foi inteiramente meu e eu o vivi intensamente em cada detalhe. Trabalhava comigo o parceiro perfeito: meu bebê, no seu ritmo, no seu momento. Nossos corpos juntos, abrindo caminho. O papai nos amparando, para que não duvidássemos de nossa capacidade. Mostramos que mamãe sabe parir e bebê sabe nascer. Vivemos a travessia do útero para a vida fora dele da maneira mais digna possível, como todo bebê merece ser recebido neste mundo.
A amamentação foi iniciada no primeiro momento, no primeiro colo, mas bebê estava cansado do esforço e parecia querer mais descansar do que se alimentar. Isso não foi problema, logo depois mostrou que entendia bem do assunto e exigiria mamãe a sua completa disposição.
Tenho algumas queixas do atendimento pediátrico dispensado a Felipe, ele passou por intervenções desnecessárias. Infelizmente, atingir a perfeição num parto hospitalar, considerando os protocolos utilizados como padrão nesses hospitais, requer briga constante, e eu já havia brigado, tanto, mas taaaanto, que estava exausta e me permiti ser plenamente feliz com a vitória alcançada: o primeiro parto normal planejado após 3 cesáreas do qual se tem relato no Rio Grande do Sul. Vencemos lindamente o sistema atuante, colocamos um enorme ponto de interrogação na frase pronta dos cesaristas: uma vez cesárea, sempre cesárea??? NÃO!!! Quebrei o ciclo de cesáreas em minha história, dilatei, meu útero não rompeu, meu corpo funcionou perfeitamente, PARI MEU BEBÊ!
Sempre ouvi histórias de parto associadas à transformação e libertação. Tinha curiosidade em saber como se daria a minha história, se algo mudaria de verdade dentro de mim ou se aquilo era força de expressão. Chegou o meu momento!
A transformação, pra mim, assim como o empoderamento, não se deu apenas na hora do parto como num passe de mágica. Começou antes. Foi um processo. Fui me transformando conforme aprendia e entendia que aquilo fazia sentido, que havia respaldo científico, baseado em evidências. Meu pensamento foi mudando e, conforme eu mudava, meu companheiro se transformava também. Se o único benefício fosse a mudança para melhor em nosso casamento, já teria valido a pena. Refiro-me à parceria que começou com as massagens diárias nos pés inchados e se estendeu ao ápice da dor, quando Jeff me deu o suporte exato que eu precisava, tanto físico quanto emocional. Nos tornamos “um” no mesmo propósito, e então não houve quem nos convencesse de que não seria possível - embora muitos tenham tentado.
Transformei-me durante os 3 dias de dores, que suportei resignadamente. Precisava exercer paciência e aceitar que não sou senhora do tempo. Mas sou senhora de mim e poderia, sim, aguentar firme aqueles momentos preparatórios. Foi o que fiz. Não fossem os pródromos desta gestação, não saberia com certeza absoluta que meu primogênito nasceu durante as contrações de treinamento, esclarecendo porque na época não dilatei.
Libertei-me quando expurguei todos os meus fantasmas e enfrentei meus medos, sozinha na madrugada, sem saber que tinha entrado em trabalho de parto. Descobri a força que possuo, a capacidade fenomenal de resistir, não à dor que vinha me trazer meu maior presente, mas resistir ao medo de sentir dor que envolve toda mulher nas minhas circunstâncias. Dilatei 7 cm em poucas horas, tendo adquirido conhecimento suficiente pra comandar meu próprio corpo ao invés de bloqueá-lo. Aprendi a abraçar a dor e andar com ela, porque era ela que me guiava.
Por fim, renasci. Eu, que por três vezes havia celebrado o nascimento de meus filhos praticamente beijando as mãos dos médicos que os trouxeram ao mundo, desta vez não fui plateia que assiste ao maior espetáculo da vida imaginando o que acontece por trás das cortinas. Fui para o palco: gritei, chorei, dancei, sorri, me contorci, sofri, vivi! A história era minha e exigi escrever lucidamente o desfecho dela! Coadjuvantes ali eram os médicos, a equipe, e sabiam disso, se alegravam nisso. Porque assim, evento fisiológico e familiar, os partos devem ser.
Pela primeira vez pude nascer junto com meu filho, alcançando profundezas do que antes para mim era apenas superfície. Não se trata apenas de empoderamento, se não existisse a aprovação do Pai Celestial nada do que vivi teria sido possível. Foi o Senhor dos céus e da terra quem me concedeu viver a experiência mais linda e sagrada do que qualquer outra: trazer um de Seus filhinhos a este mundo, recepcionando-o com respeito e amor.

Não existem limites para o que uma mulher com coração de mãe pode realizar. Mulheres dignas mudaram o curso da história e continuam a fazê-lo, e sua influência se espalhará e se multiplicará através das eternidades.”
Julie B. Beck

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O Puerpério e as Redes de Apoio

Imagem daqui
No post anterior, relatei alguns aprendizados agregados neste puerpério, embora seja o quarto que experimento na vida. Naturalmente, o puerpério propriamente dito já se foi, compreendeu os 40 dias após o parto. Mas, para quem vive a exterogestação, ele de certa forma se prolonga pelo primeiro trimestre de vida do bebê. Por vezes vai ainda além... Refiro-me aos sentimentos da mulher e às mudanças que ocorrem no corpo e na mente, nem sempre agradáveis e positivos como a mídia insiste em reproduzir.
Conto hoje com forte rede de apoio. Integro nem sei quantos grupos virtuais de incentivo ao parto humanizado, à amamentação, grupos de mães & bebês para trocas de ideias e experiências, enfim, estou muito bem amparada. Não quer dizer que sigo fielmente tudo que circula por ali – tenho meu filtro particular acionado. Mas reconheço a eficácia de se ter tantos recursos a mão em tempos atuais.
Refiro-me especialmente à oportunidade de desabafar. Quando tenho dificuldades para lidar com sentimentos desencontrados, trazidos pelo puerpério, num áudio ou post escancaro isso para meu círculo virtual. Em minutos vem o apoio, a experiência de outra mãe que passou pelo mesmo que eu, como lidou com a situação,  como reagiu, o que funcionou, aquilo que fez bem e o que não fez... Ou simplesmente vem a palavra amiga: não deve estar sendo fácil pra você, mas vai passar. Pronto. Dezenas de abraços virtuais salvam  meu dia, fortalecem minha autoestima um tanto abalada, e volto reconfortada para minha rotina exaustiva que é ser mãe de um recém nascido.
Que bom poder falar, abrir o jogo, soltar o verbo! Que bom ser ouvida, compreendida, fortalecida! Bem, acontece de ser mal interpretada também... Raramente nos grupos fechados, que cumprem a risca seu propósito de informar e apoiar ao invés de julgar atitudes. Mas na rede, quando vaza para o público algum desabafo, a tendência é a impiedade. E aí, quem dera nunca ter desabafado!
Polêmicas a parte, pois são poucos os casos que alcançam grande repercussão negativa, vejo uma série de benefícios no sistema de apoio virtual. Minha visão positiva desta prática advém de minha experiência pessoal em outros tempos.
Conheci o puerpério antes das redes sociais. Claro que, há 10 anos, a tecnologia já levava pessoas do outro lado do oceano instantaneamente para dentro de nossos lares, mas não existia ainda a popularização das comunidades virtuais. Ou eu não as tinha descoberto de forma plena. Passei meu primeiro e segundo puerpérios acreditando que tinha de andar descabelada e com olheiras em casa, mas forjar o sorriso de “mãe 24h do dia feliz e realizada” para o mundo. Qualquer reclamação seria o atestado de infelicidade. Acontece que a felicidade não joga para debaixo do tapete sentimentos de inexperiência e inadequação,  não mascara a verdade: administra tais momentos sem deixar-se atingir fatalmente por eles.
Quando somos jovens ou mães de primeira viagem, a insegurança faz parte da maternagem. No entanto, fomos ensinadas que o instinto materno é acionado com o primeiro chorinho e dali pra frente não se erra mais: o instinto apita na hora exata e a boa mamãe sempre, invariavelmente, sabe o que fazer. Logo descobrimos que não é bem assim, e sozinhas com um ser tão frágil nos braços, nos enchemos de culpa e de sentimentos de fracasso, pois a impressão é de que todas as outras nasceram sabendo. Menos nós.
Não sofri tanto no primeiro puerpério, tive minha mãe bastante presente e do meu jeito dei conta do recado. Logo engravidei novamente, uma gravidez desejada mas que me pegou desprevenida no que dizia respeito aos cuidados com  dois bebês em casa. Somaram-se outros fatores, dentre eles o estresse acumulado que me causara lecionar em  muitas escolas ao mesmo tempo, tendo que passar os dias pipocando de uma para a outra. Vivi um puerpério triste e solitário. Tornei-me reclusa, quieta, isolada, não queria assunto com ninguém. Em vez de desconfiarem da mudança repentina e oferecerem ajuda, maioria das pessoas se afastou criticando meu comportamento.
Para completar meu desespero, o amado bebezinho que chegou foi diagnosticado com refluxo, o que exigiu de mim muitos cuidados extra. Precisava dobrar a atenção à noite, quando ele vomitava e podia engasgar. Muitas e muitas madrugadas passei em claro trocando lençóis e as roupinhas de Gabriel, chorando enquanto ele também chorava. Sentia-me tão impotente para aliviar meu menino do sofrimento que o refluxo lhe causava, e aquilo me consumia.
Foi horrível ter silenciado meus medos. Foi péssimo não ter pedido ajuda. Foi desgastante cuidar de dois pequenininhos quando eu precisava também ser cuidada! O marido? Lógico que a relação degringolou. Eu não explicava o que sentia – nem eu mesma sabia definir o que era aquilo – e ele não tinha a menor ideia de como proceder diante de minha depressão. Adoecemos os dois. Quase afundamos.
Olho para trás e vejo ajuda insuficiente à disposição. Muita crítica e pouco amparo. Falta de conhecimento sobre o puerpério de minha parte, pois não se falava nisso. As mães tinham a obrigação de ser felizes e ponto final.
Faltou justamente a rede de apoio que tenho hoje! Pois o problema não foi dar conta de duas crianças – hoje tenho 4, e atravessei meu pós parto gargalhando. O problema foi não estar preparada para lidar com sentimentos que inevitavelmente viriam e acreditar que a incompetente e fracassada era eu naquelas circunstâncias. Não apareceu ninguém para me contar a verdade. Porque essas coisas não se falavam, era feio, seria uma declaração de menos mãe – ah, como detesto essa expressão! Mas é exatamente como seria definida a mulher que ousasse expor seus verdadeiros sentimentos.
Entre erros e acertos, ultrapassei meu puerpério e superei a fase de sentimentos desencontrados. Por pouco não caí numa depressão pós parto. O casamento balançou mas resistiu. Os meninos foram crescendo lindos e inteligentes e logo ganharam uma maninha. Veio então nova fase, vi a fênix que há em mim ressurgir das cinzas e alcançar voos elevados justamente quando andava com 3 pequenos pendurados na barra da saia. Afinal, aquilo que não mata, fortalece. Eu não morri, robusteci.
Cheguei aos tempos atuais muito segura, senhora de mim. Mas isso não me isentou de dias extremamente cansativos, de tardes em que só queria dormir ou chorar, de madrugadas tão exaustivas que adoraria deletar. Porque tudo isso faz parte do pacote maternagem, vem de brinde no puerpério. Está relacionado a hormônios.
Não é a toa que se fala em resguardo nessa fase, porque a mulher precisa se resguardar, se recolher, ela se volta naturalmente para dentro de si e transborda desorganizadamente o que sobeja em seu íntimo. A mulher amparada dá conta de tudo, sobrepuja sua montanha russa de sentimentos sem prejuízo da sanidade.  A mulher desamparada flerta com a depressão pós-parto.
Integro com prazer os grupos de apoio – para acolher e para ser acolhida. A mãe que desabafa não precisa de julgamentos e sim de orientação ou simplesmente de empatia. É um chamado divino, é sagrado e é lindo. Justamente por isso é desafiador, porque lapida a mulher natural transformando-a no diamante mais valioso. Diz a escritura: “Mulher virtuosa quem achará? O seu valor muito excede ao de rubis” (Provérbios 31: 10).
Há muita mulher virtuosa  chorando em segredo sem desconfiar de seu valor e de sua capacidade. Precisamos achá-las e encorajá-las. Precisamos substituir os espelhos de nossas vidas por janelas, para melhor enxergarmos umas às outras.

“Amor significa abrir um espaço em sua vida para outra pessoa”
Neil F. Marriott




sábado, 19 de março de 2016

Puerpério: aprendizados da quarta experiência.

Foto: arquivo pessoal

No dia 28 de dezembro, uma segunda-feira, tomei meu bebê recém parido nos braços e voltamos para casa, felizes da vida. Não é todo dia que se vive um parto normal após 3 cesáreas, afinal (pensa na alegria!!!).
E começava o puerpério, período conhecido como pós parto ou quarentena.
Em casa, três maninhos ansiosos esperavam pelo bebê do Natal. Foram 9 meses conversando com ele na barriga, lendo para ele, cantando e dançando com ele – tudo isso fizemos em família! Os irmãos estavam completamente envolvidos, e isso era maravilhoso.
A vovó também nos aguardava, foi o apoio imediato que toda puérpera merece ter. Cuidava do trio e das tarefas domésticas pra mim.
Eu havia tido um parto normal, o que fez toda diferença nos cuidados com o bebê. Tinha pontinhos no períneo e me perguntava se viveria em algum momento o drama de amigas minhas, que passaram dias e até meses sem poder sentar sem almofadas devido à episiotomia. Logo comprovei as vantagens da laceração espontânea, quando ocorre, em relação ao corte planejado e geralmente bem maior do que seria necessário: não tive qualquer problema com dor, infecção ou sangramento. Em dias, não havia qualquer sinal de pontos ali. E, cá entre nós, com tudo tão perfeito eu me sentia a própria diva parideira.
Acontece que a diva aqui, mãe de quarta viagem, achava que iria tirar tudo de letra, passar desfilando pelo puerpério. Oh, coitada! Sabe de nada inocente! A diva esqueceu que está mais perto dos 40 do que dos 30... e cadê a energia para as mamadas da madrugada? Muito madura emocionalmente, mas desde quando maturidade repara sono atrasado?!
Não teve jeito, este puerpério me pegou no aspecto físico. Passava os dias saracoteando, elétrica que sou, sem conseguir cochilar junto com o bebê. E à noite era aquilo que toda mãe de recém nascido sabe bem. Parecia um zumbi cambaleante pelo quarto, balançando o neném. De diva parideira a noiva cadáver em menos de uma semana!
Ou seja, puerpério será sempre puerpério: na primeira ou na quarta gestação, não importa. Será sempre um período de reconhecimento entre mãe e bebê e de adaptação ao novo mundo que surgiu com a chegada daquele serzinho inteiramente dependente. Pois a vida não será mais a mesma. Será muito melhor, possivelmente, mas a felicidade cobrará seu preço na forma de sacrifícios pessoais. E quer saber? É uma troca muito justa que vale, sim, a pena!
Aprontei mais uma nesta minha quarentena: puxei o tênis pra corrida 15 dias após o parto! Afinal, mesmo sem dormir de noite e virada em olheiras, eu me achava a Mulher Maravilha por ter tido um parto normal e ansiava por fazer coisas que a danada da cesárea não havia permitido em ocasiões anteriores. Santa ignorância! Felizmente, meu caminho cruzou com o de várias doulas e uma delas me ensinou: o puerpério não é o momento mais adequado para retorno às atividades físicas, não importa o quão bem fisicamente estejamos nos sentindo. É um período de reclusão por muitos motivos, durante o qual se estabelecem vínculos eternos com o bebê. Como eu poderia recriar para ele as sensações do útero se, mal  foi trazido a este mundo, a mamãe já se ausentou para malhar, mais ocupada com o próprio corpo do que com suas necessidades? Como poderia alimentá-lo em livre demanda se, quando ele me solicitasse através do choro, eu estivesse numa academia ou na pista de corrida?
Não foram exatamente essas as palavras da doula, mas foram as respostas que eu mesma alcancei ponderando e estudando sobre o pós parto. Teria o resto da vida para voltar a boa forma física, mas quanto tempo teria um recém nascido em casa? Poxa, eles crescem tão rápido, logo as noites mal dormidas serão nossa melhor saudade! Pois são justamente essas as noites que passamos agarradinhos, sentindo o cheiro e o calorzinho um do outro!
Mudei o foco, eliminei algo que, mesmo na maturidade, ainda insistia em perfazer meus dias: a pressa. Voltei-me para o que mais importa nesta vida, ou seja, a relação com meus filhos, em especial com o bebezinho que acabava de chegar, visto sua condição de total dependência de mim. Foi a coisa mais gratificante que fiz!
Felipe tem colo em tempo integral, todo o restante pode esperar. Tornei-me mãe dele e do trio, e dona de casa apenas nas horas vagas – se sobra alguma. Com frequência, pilhas de roupas por dobrar são vistas em algum lugar da casa. No chão, se acumulam farelos com mais insistência do que algum tempo atrás. A louça por vezes faz aniversário na pia. Não importa, não é minha prioridade.
Mas meu neném nunca chorou abandonado no berço. Berço que, por sinal, ele usa apenas para dormir à noite, quando não fazemos cama compartilhada (ele gosta de sua caminha à noite, dorme tranquilo nela, mas durante o dia só aceita colinho ou sling).
Acredito de verdade na exterogestação e nos benefícios dela para mãe e bebê (mas isso é assunto para próximos textos). Por ora importa informar que Felipe vem crescendo e se desenvolvendo sem uso de bicos artificiais (chupeta ou mamadeira), sem administração de leite artificial (mesmo quando inicialmente perdeu peso, o qual recuperou e dobrou em questão de dias, alimentando-se exclusivamente de leite materno), e isso só foi possível quando assimilei a importância de viver meu puerpério sem pressa e sem cobranças.
Como todos os bebês (pelo menos os que tem refluxo fisiológico e sofrem após as mamadas), Felipe apresentou por um período necessidade de sucção ininterrupta. Isso quer dizer que grudou em meu seio e ali passou dias, meses, anos... rsrs Sem exageros, nessa hora a gente se sente sugada até a última gota e uma chupeta parece providência divina. Parece, mas não é. Pois pode criar a confusão de bicos e provocar o desmame precoce. Sou o melhor (no caso, o pior) exemplo disso: em meus 2 meses de vida, minha mãe apresentou-me chá na mamadeira, influenciada pela palpitaria gratuita da vizinhança. Nunca mais aceitei seu leite materno. Ela chorava com os seios vazando leite, e eu chorava me projetando para trás, recusando o alimento que ela me ofertava. Venci a batalha. E perdi imunidade e tantos outros benefícios da amamentação exclusiva. Definitivamente, não deixaria que o mesmo ocorresse com meus filhos. Deixei-me sugar tanto quanto Felipe precisou e aquela fase terrível passou.
Hoje estamos há uma semana dos 3 meses, que marcam, simbolicamente, o fim da exterogestação. Tenho um bebê calmo e sorridente em casa, que não sofreu com cólicas em momento algum. Se inicialmente acordava quinhentas vezes para mamar na madrugada, ao final do primeiro mês acordava apenas 3 vezes; com 2 meses  acordava 2 vezes e na noite que passou dormiu das 21h30 às 5h45, acordando com um sorriso enorme ao me ver e não com o choro desesperado de um esfomeado. Ele está criando sua própria rotina, e não poderia ser melhor e mais tranquila para todos nós em casa.
Não tenho dúvidas de que essa rotina está diretamente relacionada à dedicação em tempo integral que tenho oferecido a ele no puerpério. Acredito também que ele crescerá seguro, sabendo ser muito querido, muito amado.
Sou solidária às mães que passam anos levantando várias vezes à noite, afinal os bebês são diferentes um do outro – tenho 4! Estendo minha empatia àquelas que experimentam pela primeira vez a maternidade, sentindo-se muitas vezes desamparadas pela própria inexperiência e pelo medo de errar. Fiquem tranquilas, estão fazendo o melhor que podem e seus bebês sentirão isso. Mas, se lhes interessar uma sugestão, eliminem a pressa de sua vida. Vivam dia após dia, colham cada sorriso, deixem-se embalar pelos primeiros gugu-dadá. A carreira espera, o corpo dos sonhos retorna. A fase recém nascido vai num piscar de olhos e deixa apenas lembranças.
O puerpério não tem nem de longe o glamur das novelas, porque não há glamur algum em andar de pijama, com unhas por fazer e descabelada pela casa. Mas puerpério tem olhinhos apaixonados que te flecham de baixo pra cima e te fazem lembrar do que realmente importa na vida: sua natureza divina.
Puerpério é amor sem hora marcada.

foto: arquivo pessoal



domingo, 21 de fevereiro de 2016

Parto Normal Após 3 Cesáreas (VBA3C) – Parte VI

Foto: arquivo pessoal
O Trabalho de Parto

“A voz de um anjo sussurrou no meu ouvido
E eu não duvido, já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo...”

Alceu Valença
Música: Anunciação

Eram aproximadamente 2h da manhã do dia 27/12, domingo, quando voltaram as contrações. Estava disposta a ignorá-las, permaneci na cama. Mas, era impressão minha, ou o negócio estava violento? Claro que era impressão minha, fora avaliada horas atrás e não havia dilatação alguma. Forcei-me a ficar deitada, fui valente, resisti! Por uns 2 minutos, se isso, e pulei enlouquecida de dor da cama! Que era aquilo?! Pensei em chamar o marido, mas o pobrezinho não dormia há 3 noites também, e tudo fora  alarme falso. Passei a andar pela casa como um fantasma, ora no quarto, ora no banheiro, ora na sala; agachada, de quatro, sentada na bola de pilates, desabada sobre a bola; e aquela agonia não passava, não dava trégua.
Prometi a mim mesma que iria dormir, deitei. Mas deitada sentia como se estivessem me rasgando ao meio. Recorri Àquele que nunca me deixou desamparada: implorei ao Pai Celestial que me permitisse dormir, mesmo com dor, pois eu realmente precisava renovar minhas forças físicas. Então vivi um milagre, algo de que nunca esquecerei: assim que terminou uma contração, adormeci. Dormindo, percebi que começava a próxima contração, e meu corpo começava a despertar. Uma voz, porém, sussurrou em meu ouvido: aceita a dor que ela passa. Aceita! Entendi a orientação e cedi, me entreguei, deixei que a dor viesse e me tomasse completamente. E passou! A situação se repetiu por algum tempo, sendo que a voz em meus sonhos me orientava e eu atendia. A dor vinha, me dominava, e ia embora. E eu suportava, me aliava a ela e não despertava! Foi algo mágico, foi extraordinário, e foi tudo que eu precisava para enfrentar o que ainda viria pela frente.
Depois de dormir literalmente com a dor por algum tempo, não tenho a menor ideia de quanto em minutos ou horas, acordei e não aguentei, tive que levantar. Estava cada vez mais intenso. Algumas vezes chamei Jeff e pedi massagem nas costas. Ele atendia no piloto automático e voltava a dormir. Eu não insistia, só recorria a ele em caso extremo. Afinal, aquilo ia durar alguns dias ainda, melhor  acostumar de uma vez.
O dia começava a clarear quando fui para o chuveiro pela enésima vez, acho, e passei a gritar de tanta dor. Até então  estava mantendo a elegância, inspirando profundamente e vocalizando quando expirava. Mas na solidão daquele banheiro, soltei o verbo e chorei, gritando que não aguentava mais, ia enlouquecer ou morrer, mas não suportaria outra noite daquelas. Não havia anotado as contrações, mas a sensação era de que uma emendava na outra, sem tempo sequer para mudar de posição. Nos poucos instantes em que ainda conseguia raciocinar, questionava se aquela sensação não estaria fora de ordem, pois a partolândia não vinha lá no final, quase na hora do expulsivo?! Eu me rendia, entregava os pontos. Fim de linha.
Como num passe de mágica, mais uma vez,  tudo aliviou. Eram 7h da manhã de domingo, aproximadamente. Peguei o celular e escrevi o mais rápido que pude para Claudia e Thays,  antes que a sofrência retornasse . Disse para as duas que não aguentava mais. Ambas queriam informação, descrição, detalhes do que eu sentia, da frequência, duração, intervalos entre as contrações. E eu por acaso sabia? Havia perdido a noção de tempo, nem pensei em anotar, afinal, bastava de registrar pródromos né! Fui taxativa: se os sintomas não aliviassem, iria para o Conceição ter uma cesárea naquele mesmo dia. Pois sempre fui, em geral, resistente  a dor, mas reconhecia ter chegado ao meu limite.
Exatamente nesse ponto da conversa, o famoso líquido escorreu por minhas pernas. Transparente, cheirando a cloro, em grande quantidade. Fiquei em êxtase, pura felicidade! Pois, em 4 gestações, era a primeira vez em que a bolsa rompia espontaneamente!  
Sabia que, com a bolsa rompida, passava a ter prazo pra parir. Se as coisas não evoluíssem em poucas horas, viveria uma cesárea. Mas estava feliz que algo tinha acontecido e a intensa dor da madrugada não fora em vão. Sentia-me confiante. Afinal, a voz de um anjo havia sussurrado em meu ouvido, e aquela era uma bela manhã de domingo...
Avisei Thays sobre a bolsa, disse que iria para o Hospital Regina aguardar o desfecho. Lembramos que ela não poderia me acompanhar, o cadastro seria feito somente na manhã seguinte. Thays perguntou se eu preferia ir ao hospital público, onde haveria alguma chance de ela poder me acompanhar no pré parto. Lembrei da frustração que me perseguia desde a primeira gravidez, há 10 anos: 1 dedo de dilatação. Se chegasse ao hospital com bolsa rompida e mínima dilatação, meu destino seria um só: cesárea. Dependeria da boa vontade do plantonista, um desconhecido que não se arriscaria por minha causa. Não, eu não suportaria isso novamente. Queria minha equipe, o hospital de minha escolha, ser bem tratada. Decidi ir para o Regina, onde minha doula infelizmente não poderia entrar. Seríamos apenas  marido e eu, como tudo começou 40 semanas atrás. Estávamos preparados!

O Parto Normal Após 3 Cesáreas

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu.”
Isaías 9:2

Chegamos ao hospital por volta de 10h30, pouco antes da obstetra. Fui direto para o cardiotoco, tudo maravilhosamente bem com bebê. O exame também captava minhas contrações, que começavam a retornar. Marido e eu atentos, vibrando quando o aparelho alcançava as medidas mais altas, torcendo: sobe mais, sobe mais. Estranho torcer para sentir dor, mas naquele contexto era exatamente isso o que nos fazia felizes.
Guísella chegou, fez o toque e  sacudiu a cabeça com expressão de surpresa. Aqueles segundos pareceram eternos, pois ficou evidente que era 8 ou 80; permanecia com 1 dedo de dilatação, ou o trabalho de parto estava avançado. Fala, doutoraaaaa! 7 cm de dilatação, disse ela vibrando conosco! Ah, que alegria, quase chorei naquele momento. Quanta felicidade! Eu, a sem dilatação, lá estava, praticamente parindo! Profunda gratidão.
Lembrei-me de ter lido que a maternidade aproxima a mulher da divindade. Senti isso naquele momento. Senti-me sendo elevada. As promessas que meu Pai Celestial me havia feito de que teria meu filho por parto natural estavam se concretizando – Ele sempre cumpre Suas promessas!
A partir daí, foi pura diversão. Na bola de pilates, eu praticamente dançava. Estava sem minha playlist, porque sei lá onde foram parar o pen drive e meu celular com as músicas selecionadas, mas não precisava: notas musicais nasciam de mim, meu coração cantarolava!
Fui levada para a sala pré parto, onde usei o chuveiro livremente, a bola e a banqueta. Fiquei alguns instantes sozinha, enquanto marido cuidava da parte burocrática, mas estava bem, sabia as posições que mais proporcionavam alívio. Em determinado momento, de súbito veio uma contração intensa. Agachei apoiada na cama, sem conseguir falar. Queria Jef ou Thays ali comigo. Mas antes que me sentisse desamparada, vi Guísella se aproximar, agachar e me confortar com voz suave, ao mesmo tempo em que  massageava minhas costas com mãos que pareciam ter o calor do fogo. De repente, a dor se mesclava com amparo e amor. Aquela dor não era exatamente isso? A  passagem para que o amor se personificasse numa nova vida que chegava.
Naqueles instantes finais rumo a dilatação total, ao invés de ir quase à loucura como imaginava, sentia-me abraçada e acolhida pelo momento. Não havia violência obstétrica, não havia verticalidade na relação obstetra-paciente, ninguém me censurando por minhas escolhas, nem exigindo silêncio. Havia paz interna e externamente. Havia humanização no real sentido da palavra. Assim, nesse clima, dilatei dos 8 aos 10 cm e senti meu bebê avisando que chegava.
Eu estava na banqueta quando vieram os primeiros puxos, isto é, aquela vontade involuntária de fazer força. Era outro nível de dor, era a certeza de que meu Felipe estava ali, querendo sair para o mundo de amor que preparamos pra recebê-lo. Jeff chamou a médica, disse que estava nascendo, Guísella veio correndo. Convidou-nos para deslocarmos até outra sala, mas eu não queria ir, sentia o neném chegando e não queria sair de jeito nenhum de onde estava nem eu sei porquê (rsrs). A obstetra me avaliou e disse que ainda não havia coroado, teríamos tempo para andar até a sala.
Amparada por Jeff, cheguei a um local cuidadosamente preparado pra eu dar à luz em total segurança. Não era uma sala de parto normal, como eu imaginava que seria, mas nem percebi naquele momento. Mais tarde, entendi que estava no bloco cirúrgico, com mesa preparada para qualquer intervenção. Em meu braço, acesso para a eventualidade de precisar ser medicada às pressas. Várias pessoas na sala, dentre elas o obstetra Fabiano, responsável pela organização do local, motivo pelo qual eu mal o tinha visto até então: estava garantindo que meu parto fosse o mais seguro de todos. Aquelas pessoas compunham a equipe de enfermagem do hospital, caso evoluíssemos para uma cesárea. Tudo cuidadosamente preparado.
Se fiquei constrangida com toda aquela gente na sala? Eu sinceramente não enxergava ninguém, só queria saber de meu bebê, que estava vindo! Mas senti a vibração positiva daquela equipe, a torcida para que tudo corresse de acordo com meus sonhos mais íntimos.
Lembro de como me senti quando entrei no local: acolhida mais uma vez, respeitada. Fui levada até uma banqueta, posição com a qual já tinha me identificado e de certa forma escolhido para parir. Meu sonho mesmo era usar banheira, mas um vba3c me chamava à realidade, lembrando que a água retardaria a intervenção, caso fosse necessária. Escolhemos ser prudentes.
Jeff sentou-se em um banco atrás de mim, de onde me apoiava e fortalecia. Guísella a minha frente, sentada no chão, com o sorriso mais encorajador deste mundo! Como me fez bem aquele sorriso, cuja mensagem inequívoca era: você vai parir, confio integralmente em ti!
Também recordo do ambiente a meia luz e da música animada tocando ao fundo. Mas que música era mesmo? Não faço a menor ideia, embora na hora tenha adorado e pensado: que bom ouvir esse som! Alguém perguntou: quer que desligue a música? Respondi que não, de modo algum. Queria música, me fazia bem.
Os puxos continuavam, quando vinham eu me agarrava em Jeff e gritava a plenos pulmões. No intervalo entre eles, conversava e recebia orientação. 

Foto: arquivo pessoal
Não sei quanto tempo ficamos nessa situação, o tempo inexiste para uma mulher vivendo o expulsivo. De repente, um desejo muito grande de fazer força e o bebê coroou. Estava esperando pelo círculo de fogo, mas essa sensação ficou para o bebê 5, pois não identifiquei a queimação sobre a qual havia lido. Ao invés disso, sentia a presença do bebê e a urgência em fazer força.

Foto: arquivo pessoal 
Porém, cadê minhas energias? Me sentia fraca diante do tamanho da missão, a cabecinha que estava coroada voltou! Precisei aguardar o próximo puxo e fazer força novamente, para que coroasse outra vez. Mas parecia tudo tão distante no tempo, como se estivéssemos há horas ali e meu neném entalado. Em algum momento, verbalizei que me sentia sem forças, não conseguiria. Fabiano, ao meu lado, estimulou: “ele está aqui, já está nascido! Vamos lá, você consegue!” Guísella conduziu minha mão até a cabecinha dele, senti uns fiapos de cabelos e aquilo me renovou!
Orei ao Senhor, pedi que Ele me ajudasse, proferindo algumas palavras em voz alta.  Lembro de ter pensado na Expiação do Salvador Jesus Cristo naquele momento de dor e agonia. Assim como Cristo padeceu para nos dar de presente a ressurreição e vida eterna, sentia-me padecendo por algo maior, pela vida que nasceria do sofrimento de um momento. Tudo, simplesmente tudo valia a pena!

Foto: arquivo pessoal
Com tal sentimento, fiz a força mais comprida que consegui, mantendo o esforço até que Felipe veio à luz, lindo de viver! Meu mundo parou, o relógio congelou, as pessoas passaram a se mover em câmera lenta como se estivessem num outro plano, distantes de mim. Só tinha olhos e emoções para meu bebê, meu Felipe, que veio no mesmo instante para meus braços.
Se alguém me falasse em dor, que dor?! Tudo simplesmente desapareceu, transformou-se para sempre. Ao meu lado, Jeff compartilhava da minha emoção. Ele, que foi meu apoio o tempo inteiro, tanto emocional quanto fisicamente. Estávamos extasiados, admirando, cheirando e amando nossa cria! Juntos, em sintonia, na mesma inesquecível emoção, ocitocinados!

Foto: arquivo pessoal

Felipe nasceu com uma circular de cordão, coisa que não atrapalha e nem impede em nada um parto normal – inclusive um parto atípico como o meu, após 3 cesáreas. Logo depois, nasceu a placenta. Tão rápido, que não senti qualquer contração, ela simplesmente veio seguindo o bebê. E era enorme a árvore que nutriu nosso garotinho por 40 semanas e 6 dias! Em poucos minutos, parou de pulsar o cordão e coube ao papai a honra de cortá-lo.
Soube então que eram apenas 13h52 quando nasceu Felipe, num expulsivo tranquilo e relativamente rápido. Pra mim, pareceu uma eternidade, mas o relógio contestou minhas sensações: tudo acontecera num ritmo sensacional.
O parto foi natural do início ao fim, sem nenhuma intervenção. Não houve indução de nenhum tipo. Não recebi e nem sequer pensei em pedir anestesia. Não fui submetida a episiotomia (aquele corte de rotina, totalmente desnecessário). Sofri pequena laceração, embora tenha realizado exercícios preventivos de fortalecimento do períneo, e recebi alguns pontos que em nada me atrapalharam, nem causaram dor posterior – nada que se compare ao desconforto causado pela episio ou cesárea, por exemplo.
O parto foi inteiramente meu e eu o vivi intensamente em cada detalhe. Trabalhava comigo o parceiro perfeito: meu bebê, no seu ritmo, no seu momento. Nossos corpos juntos, abrindo caminho. O papai nos amparando, para que não duvidássemos de nossa capacidade. Mostramos que mamãe sabe parir e bebê sabe nascer. Vivemos a travessia do útero para a vida fora dele da maneira mais digna possível, como todo bebê merece ser recebido neste mundo.
A amamentação foi iniciada no primeiro momento, no primeiro colo, mas bebê estava cansado do esforço e parecia querer mais descansar do que se alimentar. Isso não foi problema, logo depois mostrou que entendia bem do assunto e exigiria mamãe a sua completa disposição (rsrs).

Foto: arquivo pessoal

Após eterno instante de carinho, reconhecimento e estabelecimento de vínculos, Felipe acompanhou papai para  pesagem e alguns outros procedimentos. Infelizmente, a pediatria seguiu os protocolos do hospital e assim nosso filho não foi dispensado do nitrato de prata, por exemplo. A falha foi nossa nesse quesito, pois não apresentamos plano de parto já que tínhamos equipe e consideramos que a mesma agiria de acordo com  atendimento humanizado, sem qualquer forma de violência. Ainda assim, Felipe logo retornou para mim e dos meus braços não mais saiu até nossa liberação do hospital.
Felipe Emanuel Rhoden nasceu com 3.275 kg, apgar 9 e 10, 52 cm e uma pinta charmosa na cabeça, pouco acima da testa. Comprido e magrelo, como seus outros irmãos quando nasceram. Já não havia vérnix em seu corpo, pois o moço amadureceu tanto quanto pode antes de dar sinais de nascimento: estava prontinho, madurinho, todo enrugadinho, a pele descascando. Fui consultada sobre o banho do bebê, se queria que fosse dado naquele momento e respondi que não. Eu o queria como nasceu, com seu cheiro de recém parido.


Foto: arquivo pessoal

Fomos para o quarto, eu carregando meu bebê nos braços. Aquilo era incrível pra mim, eu ainda estava processando o sentimento incomparável de ter conseguido viver meu vba3c!!! Sair de lá com meu filho nos braços, sorrindo, já alimentada e cheia de autonomia não tinha preço, fazia de mim uma mulher realizada na vida. Eu me sentia ótima, e mal cheguei ao quarto já estava andando de um lado para outro e cuidando de meu filho. Não precisava de ajuda para sair da cama, usar o banheiro, tomar banho. Nada em mim doía! Incrível a sensação de autonomia que o parto normal proporciona! Sei que nem todos os partos normais, inclusive os humanizados, tem desfecho tão satisfatório assim, então recebi tudo isso como recompensa pelas 38 semanas de incertezas que vivi. Me sentia realizada, genuinamente feliz.
Somente no quarto, Jeff e eu lembramos dos registros fotográficos: tarde demais! Não tínhamos fotógrafa conosco, mas havíamos levado a câmera. Nenhum de nós lembrou. Felizmente, alguém da equipe (provavelmente o obstetra Fabiano) fez algumas fotos de seu e do nosso celular. E isso é tudo que temos. Os momentos mais preciosos, portanto, não serão jamais compartilhados visualmente, mas se reproduzirão para sempre dentro de nossa mente e coração. Parto inesquecível, para lavar a alma sedenta que eu carregava!
Permanecemos no hospital pouco mais de 24h e, após avaliação, bebê e eu fomos liberados, ambos em excelentes condições. No local, fomos muito bem tratados e respeitados. Logo minha história ficou conhecida entre a equipe de enfermagem e todos me parabenizavam pela coragem de encarar um parto normal após 3 cesáreas. Eu, que havia sido discreta na chegada, saí alardeando a conquista, provando que muito da tradição obstétrica é mito e acabava de ser derrubado.


Foto: arquivo pessoal

Cumpriu-se a promessa que recebi de anjos que me visitaram em sonhos e que, no momento em que mais precisei, vieram sussurrar em meu ouvido e nos auxiliar na travessia. Cumpriu-se também o sonho de Claudia, na tarde do dia 27/12/2015, mesmo dia em que ela celebrava o nascimento de sua caçula, parida em um vbac. Cumpriu-se um capítulo de minha existência, escrito com dor e amor, mas começava outro, de ativismo numa causa que me ganhou: pelo fim da violência obstétrica e das cesáreas eletivas contra a vontade da mulher. É possível escrever uma história diferente após 1, 2 ou até 3 cesáreas!

A Transformação

“Não existem limites para o que uma mulher com coração de mãe pode realizar. Mulheres dignas mudaram o curso da história e continuam a fazê-lo, e sua influência se espalhará e se multiplicará através das eternidades.”
Julie B. Beck

Sempre ouvi histórias de parto associadas à transformação e libertação. Tinha curiosidade em saber como se daria a minha história, se algo mudaria de verdade dentro de mim ou se aquilo era força de expressão. Chegou o meu momento!
A transformação, pra mim, assim como o empoderamento, não se deu apenas na hora do parto como num passe de mágica. Começou antes. Foi um processo. Fui me transformando conforme aprendia e entendia que aquilo fazia sentido, que havia respaldo científico, baseado em evidências. Meu pensamento foi mudando e, conforme eu mudava, meu companheiro se transformava também. Se o único benefício fosse a mudança para melhor em nosso casamento, já teria valido a pena. Refiro-me à parceria que começou com as massagens diárias nos pés inchados e se estendeu ao ápice da dor, quando Jeff me deu o suporte exato que eu precisava, tanto físico quanto emocional. Nos tornamos “um” no mesmo propósito, e então não houve quem nos convencesse de que não seria possível - embora muitos tenham tentado.
Transformei-me durante os 3 dias de dores, que suportei resignadamente. Precisava exercer paciência e aceitar que não sou senhora do tempo. Mas sou senhora de mim e poderia, sim, aguentar firme aqueles momentos preparatórios. Foi o que fiz. Não fossem os pródromos desta gestação, não saberia com certeza absoluta que meu primogênito nasceu durante as contrações de treinamento, esclarecendo porque na época não dilatei.
Libertei-me quando expurguei todos os meus fantasmas e enfrentei meus medos, sozinha na madrugada, sem saber que tinha entrado em trabalho de parto. Descobri a força que possuo, a capacidade fenomenal de resistir, não à dor que vinha me trazer meu maior presente, mas resistir ao medo de sentir dor que envolve toda mulher nas minhas circunstâncias. Dilatei 7 cm em poucas horas, tendo adquirido conhecimento suficiente pra comandar meu próprio corpo ao invés de bloqueá-lo. Aprendi a abraçar a dor e andar com ela, porque era ela que me guiava.
Por fim, renasci. Eu, que por 3 vezes havia celebrado o nascimento de meus filhos praticamente beijando as mãos dos médicos que os trouxeram ao mundo, desta vez não fui platéia que assiste ao maior espetáculo de sua vida imaginando o que acontece por trás das cortinas. Fui para o palco: gritei, chorei, dancei, sorri, me contorci, sofri, vivi! A história era minha e  exigi escrever lucidamente o desfecho dela! Coadjuvantes ali eram os médicos, a equipe, e sabiam disso, se alegravam nisso. Porque assim, evento fisiológico e familiar, os partos devem ser. Pela primeira vez pude nascer junto com meu filho, alcançando profundezas do que antes para mim era apenas superfície.
Alguns mitos caíram por terra com minha experiência:
 - Uma vez cesárea, sempre cesárea: Não! Eu pari depois de 3 cirurgias;
- A mulher não pode entrar em trabalho de parto porque isso provoca a ruptura uterina: Pode sim, na maioria dos casos. Meu útero não rompeu. E, incrível, em nenhum momento durante o trabalho de parto temi por minha vida ou por Felipe, o sentimento era muito forte de que nossos corpos estavam preparados, sabiam o que fazer;
- Circular de cordão é indicativo de cesárea: Não! Felipe nasceu com circular de cordão, que foi removida no nascimento, sem qualquer risco para o bebê;
- Existe mulher sem dilatação: Não, existe mulher que ainda não entrou em trabalho de parto. Quando entrar, ela vai dilatar;
- A mulher precisa obrigatoriamente de episio pra dar passagem pro bebê: Não! Muitas mulheres conseguem parir bebês enormes sem qualquer laceração, e mesmo quando lacera, geralmente a fissura é pequena e não causa prejuízos maiores a puérpera. Foi meu caso;
- É arriscado ficar ‘sofrendo’ 3 dias em casa sozinha ou acompanhada apenas pela doula: Não é arriscado, porque tal sofrimento, em meu caso, se referiu aos pródromos e não ao trabalho ativo de parto. As dores nessa fase são totalmente suportáveis, visto serem apenas contrações de treinamento. Meu trabalho de parto não durou 4 dias e sim iniciou por volta de 2h da manhã do dia em que meu filho nasceu, portanto foram no máximo 12 h de trabalho ativo! Fui para o hospital na hora certa, já com dilatação suficiente para evitar qualquer forma de indução e diminuir os riscos de necessidade de intervenção;
- O bebê estava em risco porque passou da hora: Não! Felipe não passou da hora, visto que a gestação poderia se estender seguramente até as 42 semanas. Estávamos apenas com 40 + 6, ele estava bem, não apresentava sofrimento fetal e não havia qualquer indício da presença de mecônio. Líquido amniótico abundante mantinha Felipe muito bem acomodado em meu ventre, sem pressa alguma para sua travessia.
- A posição segura de parto é de litotomia (posição ginecológica): Segura para os médicos, não para a mulher, que sente muito mais dor deitada com as pernas abertas e elevadas! Para mim, permanecer deitada era insuportável até nas simples contrações de treinamento, quanto mais em trabalho de parto ativo! A posição vertical me pareceu muito mais confortável, utilizei a banqueta (espécie de cadeira com buraco no meio), alcançando expulsivo relativamente rápido e tranqüilo.
Esses são alguns, dentre os tantos mitos que o próprio relato vai se encarregando de desmistificar. Cada mulher que escolhe parir tem a chance de, ao seu modo, mudar o curso da história, pois exerce influência positiva sobre suas semelhantes que desejam um parto normal, mas não acreditam que poderão tê-lo. Muitas, a grande maioria de nós, veio ao mundo fisiologicamente capaz de gestar e parir e tem perfeitas condições de fazê-lo. Mas, assim como o corpo, a mente precisa estar preparada com instrução correta, fé e empoderamento. Não há sistema operante que limite uma mulher determinada que confia plenamente em seu Pai Celestial.

O Acerto de Contas

“E Cristo disse: Se tiverdes fé em mim, tereis poder para fazer tudo quanto me parecer conveniente.”
Morôni 7:33

Olhando para trás e revendo a sucessão de acontecimentos que levaram ao parto dos meus sonhos, observo que muitas pessoas foram tiradas de meu caminho pela providência divina. Foram aqueles que me disseram não, que viraram as costas quando solicitei acolhimento em meus anseios. Não estavam à altura da experiência que eu viveria, não mereciam participar de momento tão lindo e sublime de meu protagonismo.
Permaneceram, ou surgiram na hora exata, aqueles que nunca duvidaram, que olhavam pra mim e acreditavam: ela vai parir. Entendi que tal sintonia e vibração positiva é fundamental. Antes de tudo, eu precisava acreditar. Mas a equipe que me assistiria precisava também confiar num parto lindo e sem intervenções, como de fato aconteceu. Ana Lu, Thays, Luana, Guísella e Fabiano não chegaram ao acaso em minha vida. Foram preparados e escolhidos. Juntos, escrevemos um novo capítulo para a história de partos planejados no Rio Grande do Sul, incluindo um vba3c.
Mas, será que eu precisava passar por tudo que passei nas primeiras 38 semanas? Refiro-me a angústia que poderia ter abalado negativamente minha gestação. Provavelmente sim, precisava para aprender algumas verdades inestimáveis: posso escolher o protagonismo ao invés da vitimização, em qualquer circunstância, até na mais adversa e desfavorável! Posso manter a mente firme e mover o universo a meu favor quando não me deixo abalar por julgamentos e má vontade alheios. Posso contestar médicos quando estou munida de informação, conheço meu corpo, acompanho a evolução de meu bebê, e tenho motivos reais e não idealizados para crer em condições de parir sem intercorrências óbvias.
Mas será que eu merecia passar por tudo que passei? Não, eu não merecia. Foram 38 semanas amargas, de um pré natal sem referência. Em caso de intercorrência, não sabia a quem me reportar, pois simplesmente não havia obstetra fazendo meu acompanhamento! Certamente eu merecia ter sido acolhida, orientada e acompanhada.
Sinto-me na obrigação de relatar o cenário que encontrei em meu estado quando parti em busca do parto normal. É o cenário que outras mulheres na mesma situação encontrarão e, se não estiverem verdadeiramente determinadas, acabarão desistindo de algo que mudaria para sempre suas vidas! A verdade precisa ser escancarada, e esta é a hora, este relato é o lugar: não fui acolhida por aqueles que se colocam como alternativa ao sistema cesarista. Lamentavelmente, fui julgada e rejeitada por profissional que se proclama publicamente a serviço da humanização do atendimento a gestante.
A rejeição é um direito do profissional, que honestamente pode informar a gestante que o procura: “Sinto muito, mas seu caso significa riscos para o exercício de minha profissão. Não estou disposto a correr tal risco neste momento”. Porém, o julgamento e a falta de honestidade são inaceitáveis! Especialmente quando vem de alguém que tantas vezes criticou os médicos cesaristas por enganarem suas pacientes, levando-as a cesáreas eletivas.
Fui taxada de gestante não empoderada, e rapidamente descartada a fim de não causar estragos à reputação do doutor. Tão bom livrar-se das encrencas, não é, e assumir apenas casos de baixo risco. Tão fácil acolher mulheres em tais circunstâncias e proferir belos discursos a respeito da humanização do nascimento. Mas aquelas que mais precisam ser acolhidas em seus anseios, pois vivem sua ÚNICA  chance de parir, são simplesmente ignoradas. Que se entendam com seus sonhos e sentimentos, façam terapia!
Ocorre que a não empoderada aqui insistiu, incomodou, cutucou. Foi atrás de meio mundo pedindo ajuda. Ao invés de avaliar que, talvez, a pessoa estivesse mesmo determinada e merecia apoio, o que fez o profissional a serviço da humanização? Excluiu a encrenca da rede social, alertou colegas sobre o problema à vista e atrapalhou ainda mais a batalha que já era desleal sob muitos aspectos.
Para fechar os estragos com chave de ouro, questionou: por que tal obsessão pelo parto normal agora e não antes das 3 cesáreas? Ou seja, azar o seu se foi vítima de violência obstétrica em outras gestações e teve seus partos roubados, eu não tenho nada com isso, lavo minhas mãos. Agora é tarde. Claro que a pergunta não foi feita diretamente a mim, e sim através de terceiros, pois eu responderia com outra pergunta: por que o senhor realizou cesáreas eletivas, conforme se comprova em seu histórico, antes de descobrir a importância da humanização do atendimento à gestante? Pois é...
O mais frustrante dessa história toda é saber que tal profissional, habituado a oferecer duras críticas ao sistema obstétrico vigente, não teve a dignidade de apresentar-me sua opinião face a face, durante as consultas particulares que paguei para receber seu atendimento. Fez-me acreditar que sua agenda estava cheia, que não poderia me internar pelo plano, e uma série de outros empecilhos, especialmente preparados para meu caso delicado (e indesejado). Não seria mais honesto dizer-me francamente que recuava, que temia o desfecho de meu parto? Eu compreenderia, assim como compreendi as razões da médica que me escreveu, referindo ter ficado comovida com minha causa, mas não se sentir à vontade para ir contra os protocolos vigentes. Ela foi honesta. Ela me deu retorno. Ela foi humana.
Ele se livrou de mim.
Como em tudo há um propósito, a verdade veio à tona, documentada pelo próprio profissional. Registrou seus julgamentos e os motivos pelos quais não fazia questão de me atender. Deixava claro que não tinha a menor intenção de se arriscar por uma desconhecida. Fez isso novamente através de terceiros, sem um pingo de consideração. Cadê a hombridade que se espera de alguém que tem seu nome atrelado ao conceito de humanização? Mentia para si mesmo e sabia disso, escolheu manter a máscara. Infelizmente, coube a mim vir tirá-la publicamente.   
Não bastasse encontrar tal recepção (surpreendente!) entre os humanizados, descobri que parir é exclusividade de primípara ou de abastada por aqui. Primípara porque, sem histórico de cesáreas, consegue bom atendimento em (alguns) hospitais públicos da região. Abastada porque o atendimento é caro, inacessível a grande maioria das mulheres. Em meu caso, face à exigência de dois obstetras, o valor investido foi além de minhas possibilidades. Não fosse o empréstimo obtido com amiga, eu estaria amargando agora minha quarta cirurgia. Fiz sacrifícios pessoais para manter o desejo de um nascimento digno para Felipe.
Mas será que tal serviço humanizado deveria ser disponibilizado somente a quem pode pagar altas quantias? O que dizer para mulheres que pagam o convênio mês a mês, como eu, confiando que encontrarão respaldo quando surgir a necessidade? Nem obstetra, nem pediatra, tudo particular. Até quando esse abuso conosco, pagantes de planos de saúde?!
É... A frustração foi grande. Fiquei chocada com o que encontrei nos bastidores.
Felizmente, nem todos se preocupam em fazer bonito apenas sob a luz dos refletores. Há quem realmente viva a humanização como  prática diária. E eu tive a sorte de encontrar pessoas assim, já apresentadas neste relato. Sou grata a cada uma delas por mostrarem que é possível o ativismo discreto, aquele que não sente a necessidade de atrair todos os olhares sobre seus feitos. Por, mesmo distante dos holofotes, fazerem sua parte de maneira impecável. Fui assistida por profissionais assim. Para esses, meu aplauso e minha gratidão.
Que a crítica aqui oferecida não sirva de desestímulo para a gestante em busca de seu ideal de parto. É direito seu buscar e receber o melhor. Se houver certeza do que se quer e mesmo assim as portas continuarem fechadas, a resposta é uma só: aquela é a porta errada. Levante-se e vá atrás de outra. Bata, insista, cutuque, incomode, lute. Isso se chama empoderamento, começa na gestação (ou antes) e alcança seu ápice no trabalho de parto.
Se alguém disser que você não é empoderada, não perca tempo com esse profissional. É fraco e vai recuar. Não gaste seus argumentos, não é a hora de desperdiçar energias. Guarde-as para sambar logo adiante, como eu estou sambando agora: na cara do sistema cesarista e na hipocrisia do supostamente humanizado. EU CONSEGUI, EU PARI APÓS 3 CESÁREAS!!!

Suzy Rhoden

Nossos competentes médicos obstetras: Guísella de Latorre e Fabiano Candal de Vasconcellos

Nossa querida enfermeira obstétrica: Luana Santos


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