terça-feira, 24 de outubro de 2017

A Chegada do Bebê do Natal


Síntese de meu relato de parto normal após 3 cesáreas

No dia 20 de abril de 2015 eu soube, através de um sonho, que o presente de Natal daquele ano seria atípico – e o mais incrível de todos os tempos! Teríamos um bebê, mais especificamente o bebê 4 da família.
Não houve susto, medo, relutância. Era comum acordo entre nós, marido e eu, que teríamos muitos filhos – tantos quantos o Senhor quisesse nos dar e tivéssemos saúde para educar e criar. Então o Bebê do Natal, como passamos a chamar, tornou-se bem-vindo desde antes de sequer confirmarmos por exames a sua existência: já era amado e esperado.
Mas havia um problema: o trio mais velho nasceu de cesárea. A primeira, considerada tentativa frustrada de parto normal, foi na verdade uma sucessão de erros típicos da falta de informação: ida precoce ao hospital, antes de entrar em trabalho de parto ativo; impaciência da obstetra para aguardar um trabalho de parto prolongado; indução com ‘sorinho’ (oxitocina); dilatação que não acompanhou o ritmo das contrações após a indução; falta de protagonismo meu, que deleguei tudo à equipe médica e deixei que tomassem decisões cruciais em meu lugar.
A primeira cesárea me conduziu a seguinte, dezoito meses depois, num parto agendado fora de trabalho de parto. Sentenciou a médica: risco incontestável, uma vez cesárea, sempre cesárea. Especialmente em período tão curto entre um parto e outro. Me foi recomendado de modo algum entrar em trabalho de parto, e acatei sem questionar. Dois anos e dois meses depois da segunda cesárea, em outro local, com outra médica, me vi novamente no bloco cirúrgico, tendo minhas 7 camadas cortadas e a bebê arrancada de dentro de mim. Arrancar foi a palavra, pois nunca fui tão desrespeitada como naquele parto, que vivi sem acompanhante ‘porque o hospital não permitia’. Jeferson havia segurado minha mão nas cesáreas de Arthur e Gabriel, mas teve de olhar de longe para sua princesinha Sofia quando veio ao mundo, chorando a plenos pulmões. Um choro forte, ressentido, clamando por aqueles que conhecia desde o ventre, mas no colo dos quais foi impedida de se aninhar por muitas horas. Sequer a mostraram a mim, apenas a levaram, inexistindo a necessidade visto ter ela nascido com apgar 10 e 10. Se nas duas primeiras cirurgias tive atendimento relativamente humanizado, fui respeitada dentro dos padrões para a época e o local, no parto de Sofia conheci de perto a violência obstétrica e traumatizei. Aquilo definitivamente não deveria ser a melhor forma de nascer.
Seis anos depois, chegou o Bebê do Natal aos nossos sonhos. Quarta cesárea, já estava definido. Para tudo, tira o ponto final e bota uma vírgula nessa história: a não ser que eu encontrasse equipe humanizada disposta a me assistir numa tentativa de parto normal. Com 6 semanas de gestação, assim que confirmei os famosos risquinhos no palitinho, fiz a primeira postagem num grupo de mães: alguém aí pode me indicar obstetras que priorizem o parto normal em Porto Alegre ou região metropolitana? Foi dado o primeiro passo de uma longa, extenuante, por vezes desanimadora, mas incrível caminhada.
É difícil pra mim resumir tudo que aconteceu no intervalo entre essas 6 semanas e as 38, às vésperas de meu parto, quando finalmente conheci a equipe que iria me atender. Mas se fosse fazê-lo numa frase, essa seria: impossível, risco incontestável. Foi o que ouvi o tempo inteiro, de todos os médicos aos quais procurei – e o fiz por meio de consultas pelo convênio, consultas particulares, telefone, redes sociais... Colecionei nãos.
Por outro lado, esse período me proporcionou encontro significativo com muitas redes de apoio, sobretudo as virtuais. Formaram-se laços, enquanto me fortalecia como mulher e me preparava para protagonizar o mais intenso momento da minha vida. Claudia, amiga desde os tempos da faculdade, foi aquela que plantou a semente, quando viveu seu vbac dois anos antes. Tão logo me vi grávida, escrevi pra ela, e de São Paulo vieram informações, livros e amor. Logo depois, conheci as doulas Analu e Thaís, ambas essenciais para o desfecho que tivemos. No final, quase às vésperas do grande dia, um encontro com a enfermeira obstétrica Luana Santos definiu tudo numa simples conversa: eu iria parir, ela acreditava e eu também. Pena que ela não poderia me assistir, visto ter a agenda cheia para o mês de dezembro... Mas foi em nossa conversa que recebi a indicação da Dra. Guísela de Latorre, médica humanizada que atende na cidade de Novo Hamburgo. Agendei a consulta para a data que marcava minha entrada na 39ª semana de gestação.
O bom de chegar num consultório médico praticamente parindo é que eles sabem que você realmente quer parir e a essa altura está pronta pra bancar o que vier, e você também sabe que eles só vão te aceitar como paciente se realmente forem fazer teu parto. Ninguém enrola ninguém – porque de enrolação eu já estava cheia, farta.
Então, em meados de dezembro, cheguei barrigudíssima ao consultório de Dra. Guísela, na clínica Obstare. Preciso pontuar a acolhida que tive desde o primeiro telefonema, através das secretárias competentes e simpaticíssimas Julia e Marcy. Também tenho nítido na mente o sorriso de Guísela quando falou meu nome e me recebeu em sua sala. Pequenos detalhes que fizeram toda a diferença àquela altura, para um casal cansado de portas na cara.
Guísela avaliou nosso caso com todos os cuidados, afinal não cai do céu uma maluca solicitando um vba3c todos os dias. Abriu artigos, leu tudo para nós, nos deu ciência dos riscos existentes, avaliou exames até então realizados, solicitou novos exames, exigiu termo de responsabilidade, condicionou o parto à presença de seu esposo, também obstetra, para eventual necessidade de intervenção, e por fim disse SIM!!! Bem... foi o sim mais caro da minha vida, me custou um rim e um olho da cara, mas naquele instante de tudo ou nada, tendo eu batalhado tanto pela possibilidade de parir, topei.
Preciso abrir um parênteses aqui para frisar a total impossibilidade de um parto, sobretudo um parto normal após 3 cesáreas, pelo convênio. Infelizmente o parto humanizado torna-se caro e inacessível para maioria das mulheres, que acaba cedendo à pressão médica e dos familiares pela cesárea – mais prática e econômica (não deveria ser). Minha experiência me mostrou que recorrer ao SUS seria mais viável do que sonhar com um parto dentro das minhas expectativas pelo convênio, e certamente seria minha opção não fossem as 3 cesáreas prévias que me colocavam no bloco cirúrgico do hospital público, de qualquer maneira.
A questão financeira foi resolvida com a ajuda de uma amiga, que me emprestou os valores. Decidimos que eu teria um parto hospitalar, internada pelo convênio no Hospital Regina, em Novo Hamburgo, para onde me dirigiria já em trabalho de parto ativo. Como acompanhantes, teria a doula Thays e meu marido (doula deveria ser parte da equipe, mas infelizmente a maioria dos hospitais a vê e trata apenas como acompanhante).
Em casa, vivíamos os preparativos finais em família. O trio muito animado à espera do maninho, minha mãe já de mala e cuia na cidade para me ajudar e eu com os olhos fitos na troca de lua em pleno Natal... será?! Não carregava a ansiedade que poderia caracterizar um atípico parto normal depois de tantas cesáreas, pois tinha conquistado o apoio incondicional do marido ao longo da gestação, e isso significava muito pra mim. Juntos havíamos alcançado, através de uma bênção do sacerdócio que ele ministrou a mim, a certeza de que tudo daria certo e o Senhor nos abençoaria na travessia de Felipe da vida pré mortal para a mortalidade. Após aquele momento sagrado, nada mais temi, pois a promessa era clara e inequívoca e ressoava o tempo inteiro em meus ouvidos: meu filho nasceria de parto natural.
Chegaram as 40 semanas em 21/12, e nenhum sinal do bebê chegando. Mas na manhã de 24/12, véspera de Natal, começaram as contrações que não me abandonaram mais até o nascimento de Felipe. Eram 5h da manhã quando tudo começou. Passei o dia sentindo fisgadas que nasciam nas costas, mas eram irregulares na frequência e na duração. Saí para fazer as últimas compras de Natal, caminhei, agachei, dancei, rebolei na bola de pilates, fiz tudo que li ser conveniente para um trabalho de parto natural. Mas não engrenava.
Na noite de Natal, a dor intensificou. Marido ficou de plantão ao meu lado anotando tudo e a doula, com quem mantive contato ao longo do dia, entendeu ser a hora de nos visitar. Suas massagens fizeram milagres! Contatamos a médica no meio da madrugada e nos preparamos para os 40/50 minutos até o hospital, mas para nossa surpresa e frustração as contrações, que eram terríveis no carro, praticamente desapareceram assim que cheguei ao hospital. Fui avaliada pelo plantonista, com autorização minha e de Dra Guísela, e para meu desespero havia apenas 1 dedo de dilatação!!! Passei pelo MAP, bebê estava bem e ainda alto. Eu não estava em trabalho de parto ativo e o tão esperado momento poderia demorar a chegar.
Na tarde do dia 25 recebi a visita de Claudia, que acabara de chegar de São Paulo para os festejos de Natal. Encontrou-me bem, com poucas e suportáveis contrações. A noite, porém, não foi tão tranquila... Mas o dia raiou sem novidades. E sem novidades dia 26 teria terminado, não fossem aquelas contrações irregulares que roubavam completamente minha energia e bom humor. Era o terceiro dia ininterrupto de sinais que não engrenavam num trabalho de parto ativo, mas me desgastavam. Thays veio para nossa casa, conforme a solicitamos, e por volta de 21h decidimos ir ao hospital para nova avaliação. Guísela nos esperava no hospital Regina, me avaliou e deu-me a notícia: nada além de 1 dedo dilatado!!! Aquilo era inacreditável, pois há 3 dias dores intensas me acompanhavam e nada acontecia!!! Submetida ao MAP mais uma vez, tive a tranquilizante notícia de que os batimentos do bebê seguiam maravilhosamente bem. Tivemos então uma conversa séria: os pródromos que me acompanhavam podiam durar até uma semana, não havia como prever. Se realmente queria um parto normal, teria que suportar aquela situação. A doutora sugeriu manter-me internada naquela noite, para me acostumar ao ambiente hospitalar e vencer um possível bloqueio. Mas achamos melhor voltar pra casa e aguardar o tempo do bebê, que parecia querer celebrar o ano novo dentro da minha barriga rsrs.
Em casa, dispensei a doula e disse ao marido que dormisse e descansasse, pois há duas noites nenhum de nós conseguia fazê-lo. Decidi-me a dormir também, apesar das dores, pois aquela situação poderia se prolongar por dias, e eu não havia chegado até ali para ser vencida nos pródromos, não faria sentido! Orei ao Senhor por forças, para que conseguisse dormir, apesar das dores que sentia. Então vivi o que chamo de milagre, pois adormeci e tive uma espécie de sonho do qual fui despertada pela contração. No entanto, quando estava prestes a acordar completamente, uma voz em minha mente orientou: aceita a dor que ela passa. Soube que era ajuda divina, a mesma ajuda que tive o tempo inteiro e que me dava a certeza de que no fim tudo daria certo. Segui a orientação, mergulhei em cada contração, sentindo-a profundamente, entregando-me a ela, até que passava e eu continuava adormecida. Depois de duas noites em claro, finalmente, consegui dormir por alguns minutos. Aquele descanso foi providencial, restaurou as forças que eu precisaria para os momentos que estavam por vir.
Então despertei sem chances de voltar a dormir: as contrações eram intensas, doía muito. Me neguei a contá-las, pois havia feito isso em vão por duas noites e isto só elevava minha ansiedade. Levantei da cama e passei a revezar posições já conhecidas: agachada, em 4 apoios, banho morno, sentada, jogada sobre a bola de pilates, banho morno, andando como pata, banho morno, banho morno... depois de algum tempo, nem o santo banho morno resolvia, me senti perdendo a sanidade, enlouquecendo de tanta dor. O ápice se deu ao amanhecer, quando me vi gritando agarrada às paredes do banheiro, me sentindo sem condições de viver aquilo por mais um dia. Era o máximo que aguentaria, cheguei ao limite e desistiria.
7h da manhã peguei o celular e passei mensagens para a doula e para Cláudia. Contei-lhes que não dava mais, iria ao Hospital Conceição para a quarta cesárea. Sem chances de aguentar talvez mais uma semana naquelas condições, eu me entregava. Só que não. Exatamente em meio a mensagem na qual mencionava a desistência do parto normal, senti o líquido escorrer pelas pernas, e logo veio a confirmação: era a bolsa mesmo, havia rompido!!!
Fui ao céu e voltei de tanta felicidade, pois em 4 gestações era a primeira vez que a bolsa rompia espontaneamente, o que certamente era um bom sinal. Era o indicativo que eu precisava de que o bebê estava vindo! Tudo isso na manhã do dia 27/12/2015, um domingo, por coincidência justamente a data de aniversário de Luíza, filha da Cláudia, que nascera em um vbac dois anos antes. Felipe escolheu o mesmo dia da filhinha de minha amiga para aniversariar, estabelecendo entre nós um laço eterno.
Poderia dizer que corremos para o hospital. Mas não foi assim, a maturidade me ensinou que não se corre para o hospital, principalmente em meu caso, para evitar que a chegada precoce conduza a uma cesárea. Havia apenas um agravante: a ampulheta havia sido virada com o rompimento da bolsa, e passamos a ter horas contadas. Ainda assim, bem tranquilos, partimos por volta de 10h. Sem a doula, infelizmente, já que devido a um mau entendido não foi feito cadastro dela no hospital a tempo, e o mesmo só poderia ser feito em dia útil, portanto na manhã seguinte. Uma pena, pois Thays foi muito importante em diversos momentos.
No hospital, ainda precisaria passar pelo teste de fogo: avaliação da dilatação. Que agonia! Olhares postos na Dra Guísela que me examinou e, após eternos segundos, nos deu a mais desejada notícia de todos os tempos: 7 cm dilatados!!!! Uhuuuuuu!!! EU DILATEI, descobri que como todas as mulheres tenho, SIM, a capacidade de dilatar e de parir meus bebês!!!
Lembrei-me de ter lido que a maternidade aproxima a mulher da divindade. Senti isso naquele momento. Senti-me sendo elevada. As promessas que meu Pai Celestial me havia feito de que teria meu filho por parto natural estavam se concretizando – Ele sempre cumpre Suas promessas!
A partir daí, foi pura diversão. Na bola de pilates eu praticamente dançava. Estava sem minha playlist, porque sei lá onde foram parar o pen drive e meu celular com as músicas selecionadas, mas não precisava: notas musicais nasciam de mim, meu coração cantarolava!
Fui levada para a sala pré parto, onde usei o chuveiro livremente, a bola e a banqueta. Fiquei alguns instantes sozinha, enquanto marido cuidava da parte burocrática, mas estava bem, sabia as posições que mais proporcionavam alívio. Em determinado momento, de súbito veio uma contração intensa. Agachei apoiada na cama, sem conseguir falar. Queria Jef ou Thays ali comigo. Mas antes que me sentisse desamparada, vi Guísella se aproximar, agachar e me confortar com voz suave, ao mesmo tempo em que massageava minhas costas com mãos que pareciam ter o calor do fogo. De repente a dor se mesclava com amparo e amor. Aquela dor não era exatamente isso? A passagem para que o amor se personificasse numa nova vida que chegava.
Naqueles instantes finais rumo a dilatação total, em vez de ir quase à loucura como imaginava, sentia-me abraçada e acolhida pelo momento. Não havia violência obstétrica, não havia verticalidade na relação obstetra-paciente, ninguém me censurando por minhas escolhas, nem exigindo silêncio. Havia paz interna e externamente. Havia humanização no real sentido da palavra. Assim, nesse clima, dilatei dos 8 aos 10 cm e senti meu bebê avisando que chegava.
Estava na banqueta quando vieram os primeiros puxos, isto é, aquela vontade involuntária de fazer força. Era outro nível de dor, era a certeza de que meu Felipe estava ali, querendo sair para o mundo de amor que preparamos pra recebê-lo. Jeff chamou a médica, disse que estava nascendo, Guísela veio correndo. Convidou-nos para deslocarmos até outra sala, mas eu não queria ir, sentia o neném chegando e não queria sair de jeito nenhum de onde estava nem eu sei porquê (rsrs). A obstetra me avaliou e disse que ainda não havia coroado, teríamos tempo para andar até a sala.
Amparada por Jeff, cheguei a um local cuidadosamente preparado pra eu dar à luz em total segurança. Não era uma sala de parto normal, como eu imaginava que seria, mas nem percebi naquele momento. Mais tarde, entendi que estava no bloco cirúrgico, com mesa preparada para qualquer intervenção. Em meu braço, acesso para a eventualidade de precisar ser medicada às pressas. Várias pessoas na sala, dentre elas o obstetra Fabiano, responsável pela organização do local, motivo pelo qual eu mal o tinha visto até então: estava garantindo que meu parto fosse o mais seguro de todos. Aquelas pessoas compunham a equipe de enfermagem do hospital, caso evoluíssemos para uma cesárea. Tudo cuidadosamente preparado.
Se fiquei constrangida com toda aquela gente na sala? Eu sinceramente não enxergava ninguém, só queria saber de meu bebê, que estava vindo! Mas senti a vibração positiva daquela equipe, a torcida para que tudo corresse de acordo com meus sonhos mais íntimos.
Lembro de como me senti quando entrei no local: acolhida mais uma vez, respeitada. Fui levada até uma banqueta, posição com a qual já tinha me identificado e de certa forma escolhido para parir. Meu sonho mesmo era usar banheira, mas um vba3c me chamava à realidade, lembrando que a água retardaria a intervenção, caso fosse necessária. Escolhemos ser prudentes.
Jeff sentou-se em um banco atrás de mim, de onde me apoiava e fortalecia. Guísela a minha frente, sentada no chão, com o sorriso mais encorajador deste mundo! Como me fez bem aquele sorriso, cuja mensagem inequívoca era: você vai parir, confio integralmente em ti!
Também recordo do ambiente a meia luz e da música animada tocando ao fundo. Mas que música era mesmo? Não faço a menor ideia, embora na hora tenha adorado e pensado: que bom ouvir esse som! Alguém perguntou: quer que desligue a música? Respondi que não, de modo algum. Queria música, me fazia bem.
Os puxos continuavam, quando vinham eu me agarrava em Jeff e gritava a plenos pulmões. No intervalo entre eles, conversava e recebia orientação, estava totalmente consciente e presente.
Não sei quanto tempo ficamos nessa situação, o tempo inexiste para uma mulher vivendo o expulsivo. De repente, um desejo muito grande de fazer força e o bebê coroou. Estava esperando pelo círculo de fogo, mas essa sensação ficou para o bebê 5, pois não identifiquei a queimação sobre a qual havia lido. Ao invés disso, sentia a presença do bebê e a urgência em fazer força.
Porém, cadê minhas energias? Me sentia fraca diante do tamanho da missão, a cabecinha que estava coroada voltou! Precisei aguardar o próximo puxo e fazer força novamente, para que coroasse outra vez. Mas parecia tudo tão distante no tempo, como se estivéssemos há horas ali e meu neném entalado. Em algum momento, verbalizei que me sentia sem forças, não conseguiria. Fabiano, ao meu lado, estimulou: “ele está aqui, já está nascido! Vamos lá, você consegue!” Guísella conduziu minha mão até a cabecinha dele, senti uns fiapos de cabelos e aquilo me renovou!
Orei ao Senhor, pedi que Ele me ajudasse, proferindo algumas palavras em voz alta. Lembro de ter pensado na Expiação do Salvador Jesus Cristo naquele momento de dor e agonia. Assim como Cristo padeceu para nos dar de presente a ressurreição e vida eterna, sentia-me padecendo por algo maior, pela vida que nasceria do sofrimento de um momento. Tudo, simplesmente tudo valia a pena!
Com tal sentimento, fiz a força mais comprida que consegui, mantendo o esforço até que Felipe veio à luz, lindo de viver! Meu mundo parou, o relógio congelou, as pessoas passaram a se mover em câmera lenta como se estivessem num outro plano, distantes de mim. Só tinha olhos e emoções para meu bebê, meu Felipe, que veio no mesmo instante para meus braços.
Se alguém me falasse em dor, que dor?! Tudo simplesmente desapareceu, transformou-se para sempre. Ao meu lado, Jeff compartilhava da minha emoção. Ele, que foi meu apoio o tempo inteiro, tanto emocional quanto fisicamente. Estávamos extasiados, admirando, cheirando e amando nossa cria! Juntos, em sintonia, na mesma inesquecível emoção, oxitocinados!
Felipe nasceu com uma circular de cordão, coisa que não atrapalha e nem impede em nada um parto normal – inclusive um parto atípico como o meu, após 3 cesáreas. Logo depois, nasceu a placenta. Tão rápido, que não senti qualquer contração, ela simplesmente veio seguindo o bebê. E era enorme a árvore que nutriu nosso garotinho por 40 semanas e 6 dias! Em poucos minutos, parou de pulsar o cordão e coube ao papai a honra de cortá-lo.
Soube então que eram apenas 13h52 quando nasceu Felipe. Pra mim, pareceu uma eternidade, mas o relógio contestou minhas sensações: tudo acontecera num ritmo sensacional desde nossa entrada no hospital.
O parto foi natural do início ao fim, sem nenhuma intervenção. Não houve indução de nenhum tipo. Não recebi e nem sequer pensei em pedir anestesia. Não fui submetida a episiotomia (aquele corte de rotina, totalmente desnecessário). Sofri pequena laceração, embora tenha realizado exercícios preventivos de fortalecimento do períneo, e recebi alguns pontos que em nada me atrapalharam, nem causaram dor posterior – nada que se compare ao desconforto causado pela episio ou cesárea, por exemplo.
O parto foi inteiramente meu e eu o vivi intensamente em cada detalhe. Trabalhava comigo o parceiro perfeito: meu bebê, no seu ritmo, no seu momento. Nossos corpos juntos, abrindo caminho. O papai nos amparando, para que não duvidássemos de nossa capacidade. Mostramos que mamãe sabe parir e bebê sabe nascer. Vivemos a travessia do útero para a vida fora dele da maneira mais digna possível, como todo bebê merece ser recebido neste mundo.
A amamentação foi iniciada no primeiro momento, no primeiro colo, mas bebê estava cansado do esforço e parecia querer mais descansar do que se alimentar. Isso não foi problema, logo depois mostrou que entendia bem do assunto e exigiria mamãe a sua completa disposição.
Tenho algumas queixas do atendimento pediátrico dispensado a Felipe, ele passou por intervenções desnecessárias. Infelizmente, atingir a perfeição num parto hospitalar, considerando os protocolos utilizados como padrão nesses hospitais, requer briga constante, e eu já havia brigado, tanto, mas taaaanto, que estava exausta e me permiti ser plenamente feliz com a vitória alcançada: o primeiro parto normal planejado após 3 cesáreas do qual se tem relato no Rio Grande do Sul. Vencemos lindamente o sistema atuante, colocamos um enorme ponto de interrogação na frase pronta dos cesaristas: uma vez cesárea, sempre cesárea??? NÃO!!! Quebrei o ciclo de cesáreas em minha história, dilatei, meu útero não rompeu, meu corpo funcionou perfeitamente, PARI MEU BEBÊ!
Sempre ouvi histórias de parto associadas à transformação e libertação. Tinha curiosidade em saber como se daria a minha história, se algo mudaria de verdade dentro de mim ou se aquilo era força de expressão. Chegou o meu momento!
A transformação, pra mim, assim como o empoderamento, não se deu apenas na hora do parto como num passe de mágica. Começou antes. Foi um processo. Fui me transformando conforme aprendia e entendia que aquilo fazia sentido, que havia respaldo científico, baseado em evidências. Meu pensamento foi mudando e, conforme eu mudava, meu companheiro se transformava também. Se o único benefício fosse a mudança para melhor em nosso casamento, já teria valido a pena. Refiro-me à parceria que começou com as massagens diárias nos pés inchados e se estendeu ao ápice da dor, quando Jeff me deu o suporte exato que eu precisava, tanto físico quanto emocional. Nos tornamos “um” no mesmo propósito, e então não houve quem nos convencesse de que não seria possível - embora muitos tenham tentado.
Transformei-me durante os 3 dias de dores, que suportei resignadamente. Precisava exercer paciência e aceitar que não sou senhora do tempo. Mas sou senhora de mim e poderia, sim, aguentar firme aqueles momentos preparatórios. Foi o que fiz. Não fossem os pródromos desta gestação, não saberia com certeza absoluta que meu primogênito nasceu durante as contrações de treinamento, esclarecendo porque na época não dilatei.
Libertei-me quando expurguei todos os meus fantasmas e enfrentei meus medos, sozinha na madrugada, sem saber que tinha entrado em trabalho de parto. Descobri a força que possuo, a capacidade fenomenal de resistir, não à dor que vinha me trazer meu maior presente, mas resistir ao medo de sentir dor que envolve toda mulher nas minhas circunstâncias. Dilatei 7 cm em poucas horas, tendo adquirido conhecimento suficiente pra comandar meu próprio corpo ao invés de bloqueá-lo. Aprendi a abraçar a dor e andar com ela, porque era ela que me guiava.
Por fim, renasci. Eu, que por três vezes havia celebrado o nascimento de meus filhos praticamente beijando as mãos dos médicos que os trouxeram ao mundo, desta vez não fui plateia que assiste ao maior espetáculo da vida imaginando o que acontece por trás das cortinas. Fui para o palco: gritei, chorei, dancei, sorri, me contorci, sofri, vivi! A história era minha e exigi escrever lucidamente o desfecho dela! Coadjuvantes ali eram os médicos, a equipe, e sabiam disso, se alegravam nisso. Porque assim, evento fisiológico e familiar, os partos devem ser.
Pela primeira vez pude nascer junto com meu filho, alcançando profundezas do que antes para mim era apenas superfície. Não se trata apenas de empoderamento, se não existisse a aprovação do Pai Celestial nada do que vivi teria sido possível. Foi o Senhor dos céus e da terra quem me concedeu viver a experiência mais linda e sagrada do que qualquer outra: trazer um de Seus filhinhos a este mundo, recepcionando-o com respeito e amor.

Não existem limites para o que uma mulher com coração de mãe pode realizar. Mulheres dignas mudaram o curso da história e continuam a fazê-lo, e sua influência se espalhará e se multiplicará através das eternidades.”
Julie B. Beck

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