“Suzy, isto eu acho lindo na religião de vocês: ao invés de criticarem as outras religiões, estão ajudando o próximo”.
A constatação, feita por amiga querida que não compartilha de minha fé, penetrou com força em meu coração, enchendo-me de alegria. Pois, baseada em observação pessoal, ela conseguiu captar exatamente a essência do povo SUD (membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias): o respeito pelas crenças alheias e o serviço ao próximo.
Não gosto de imposições. Quem gosta? Ninguém me obrigou a escolher a religião SUD, filiei-me à igreja por minha própria vontade. Senti-me acolhida e valorizada desde o primeiro instante, tendo total liberdade para fazer minhas escolhas. A 11ª Regra de Fé da religião deixa esse princípio evidente:
“Pretendemos o privilégio de adorar a Deus Todo-Poderoso de acordo com os ditames de nossa própria consciência; e concedemos a todos os homens o mesmo privilégio, deixando-os adorar como, onde ou o que desejarem”.
Portanto, o ataque a outras religiões é algo que definitivamente não faz parte de nosso trabalho missionário. Por outro lado, somos alvo freqüente de quem desconhece a doutrina da igreja e tenta deturpá-la das mais variadas maneiras. O que fazemos? Continuamos trabalhando para nosso próprio aperfeiçoamento e para o bem-estar de nosso próximo. Rebater críticas seria uma perda de tempo, e tempo é precioso para quem tem a intenção de ser útil!
Chegamos ao segundo ponto, abordado por minha amiga em seu feliz comentário: estamos servindo o próximo. Sim, é o que pretendemos, o que mais desejamos! Discreta e silenciosamente, na grande maioria das vezes. Porém, quando se trata de meta nacional ou mundial, a cobertura midiática é inevitável. Foi o que aconteceu no sábado, 28 de julho, em relação ao projeto Mãos que Ajudam.
Trata-se de um programa permanente de ajuda humanitária e serviço comunitário. Sendo permanente, a ação é contínua e acontece em todas as unidades da igreja. O projeto desenvolvido adapta-se às necessidades de cada comunidade e o serviço é inteiramente voluntário – sem remuneração – sendo realizado por membros e amigos da igreja. Quando a meta é nacional, a mesma ação é desenvolvida de norte a sul, o que gera um sentimento muito especial de unidade e fortalecimento.
O projeto em questão foi lançado em março, sob o título Mãos que Ajudam a Armazenar e Doar Alimentos. A partir de então, arroz e feijão passaram a ser armazenados em grandes quantidades, provenientes de doações espontâneas. O armazenamento, que é uma prática da igreja, tem a intenção de evitar o desperdício de grãos, bem como aumentar a validade dos produtos. Além disso, a utilização de garrafas pets como embalagem está de acordo com nossa visão de uma cultura solidária sustentável, voltada para a reciclagem e reaproveitamento de materiais. As técnicas de armazenamento foram transmitidas à comunidade, através de oficinas realizadas de março a julho deste ano.
A segunda parte do projeto consistia na doação desses alimentos, devidamente armazenados, a instituições locais previamente selecionadas, cujos representantes participaram das oficinas desenvolvidas. A entrega dos donativos aconteceu no último sábado, ultrapassando a meta nacional de 400 toneladas de alimentos – conseguimos mais de 500!
Talvez alguns pensem: “eles fazem isso para aparecer na mídia!” Não nos importamos com o comentário, pois, se não aparecêssemos, haveria alguém para dizer: “eles nada fazem!”. Portanto, como complementou minha querida amiga: “Critica quem não faz nada, não é mesmo?” É exatamente assim.
Por fim, quero deixar registrada aqui minha experiência pessoal, contando um pouco do que vivi no último sábado: adaptamos o projeto em nossa unidade, aliando a doação de alimentos ao “sopão” preparado e servido mensalmente, numa ação conjunta da Igreja Católica com A Igreja de Jesus Cristos dos Santos dos Últimos Dias. Crenças diferentes? Sim, completamente. Mas isso não tem a menor importância para as crianças beneficiadas pelo programa, todas carentes, integrantes de uma comunidade local. O sentimento era de união em um nobre propósito – como acontece todos os meses – ultrapassando as fronteiras de religião. E isso é o que realmente importa.
Lá conheci Éric, 2 anos, seu irmão Fernando, 4, e o tio de ambos, Daniel, 10 anos. Entre muitas outras crianças. Mas essas ganharam minha atenção quase de imediato, visto que Éric chorava sem parar. Queria a avó, explicou o tio, que tentava auxiliar nas tarefas do dia. Para distraí-lo, segurei o pequeno no colo enquanto conversava com o trio. Em minutos contaram-me, sem que eu nada perguntasse a respeito, que o pai tinha ido embora, e a mamãe também, há poucos dias. Entendi a insistência de Éric em garantir que a avó estivesse ao alcance de suas mãozinhas: para que não fugisse também! Mas ele logo distraiu, sorriu pra mim e colou seu rosto ao meu. A atitude chamou a atenção de uma senhora, conhecida da família, que se aproximou e sussurrou: “Ele não aceita o colo de ninguém! Mas a mãe dele tinha o cabelo loirinho assim, semelhante ao seu... acho que ele olha pra você e lembra dela!”
Confesso que, em dado momento, pedi licença e fui ao banheiro para disfarçar as lágrimas. Como alguém poderia ter abandonado dois anjos como aqueles que eu acabara de conhecer, praticamente sem alimento, sem carinho e proteção?! Mas bastou um instante para eu me recompor emocionalmente, conforme veio a compreensão:
Éric não precisa de lágrimas derramadas por ele; precisa de pessoas que abracem sua causa, arregacem as mangas e não tenham medo, vergonha ou preguiça de colocar-se em ação!
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Este é o Éric :) |
Suzy Rhoden