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Da mesma forma que, tão logo
saímos das fraldas, somos obrigados a decidir para a vida toda se somos
gremistas ou colorados, aqui no Rio Grande do Sul temos de nos posicionar
quanto à preferência: verão ou inverno.
Na infância, não tenho dúvidas,
o verão é tudo na vida de uma pessoa. Quem, aos cinco anos, está preocupado se
o mar é marrom chocolatão ou se é verde azulado transparente, e fica lindo nas fotos? Por sinal, nessa idade
tudo que não se quer é gastar minutos preciosos fazendo pose pra foto ficar
bonita no instagram. A vida é pra ser vivida, não precisa ser registrada.
Mas... A gente vai crescendo e ouvindo aquelas histórias de que nada se
compara a elegância europeia. Para quem tem Gramado e Canela bem ao lado, é
praticamente um insulto não amar o inverno acima de todas as estações. De fato,
nossa Serra supera infinitamente, na beleza da paisagem, o nosso litoral... É o
que os cartões postais dizem por aí, mas bem sabemos que conceito de beleza é
coisa relativa.
Fato é que, em algum momento da
vida, nos bandeamos para o lado do inverno, ostentamos elegância em poses
românticas, sonhando com uma neve que raramente aparece por aqui. Charmosas,
com toda certeza. Bem vestidas. Pelo menos é o que dizem as fotos, pois nessa
época vivemos essencialmente para os registros, pouco importando se a parte não
registrada de nosso dia é passada apaticamente, devido ao frio, debaixo do
edredom.
Finalmente, estamos aptas a
decidir, com conhecimento de causa, se nos identificamos com verão ou com
inverno. Não adianta citar outono ou primavera, seria o mesmo que incluir um
terceiro time no meio de um grenal: tudo bem, você também simpatiza com Juventude, mas você é Grêmio ou Inter? Não há
posição neutra.
Portanto, ser gaúcho é ser
radical, de um extremo a outro. Para cá ou para lá, Maragato ou Chimango. Tampouco fugi eu a tradição local: nasci sob a
ditadura gremista, mas tão logo me vi gente, proclamei-me colorada. Revolucionária
desde a tenra idade...
Perambulei, também, entre
inverno e verão. Pequena e criada distante do litoral, amava os banhos de sanga,
possíveis apenas no verão. Até fiz tentativa inversa, aos 4 anos, ao entrar no
riacho perto de casa, acompanhada da prima Sandra, usando calças de lã... Não
funcionou muito bem, parece que nossas mães não gostaram da invenção.
Crescida, encafifei com os
charmosos cachecois, jurava amar o inverno de paixão. Ostentava não ver a hora
de puxar a coleção de casacos, sob os quais passaria os dias tremendo e proclamando: que
delícia de estação, adoro acordar cedo e ir à aula, sou pura disposição! E passar os dias com os pés congelados, então,
que incrível sensação! Mas nada se compara a sentir o vento minuano assoviando
nos meus ouvidos, com aquele bafo congelante bem na minha cara – é um prazer
inenarrável!
Não sei por quanto tempo enganei a mim mesma com argumentos tão convincentes. Hoje em nada me interessa a gélida elegância,
quero mais é sol e mar, aproveitados com moderação. Tomei partido, sou luz
solar, sou areia sob os pés, sou verão. Sou limonada, água de coco, banho de
cachoeira. Sou energia que nunca acaba, de dias que começam cedo e terminam
tarde. Sou maresia, calor humano, empolgação.
Sou e pronto. E cada um que
seja conforme sente, pensa, acredita, e não por mera ostentação.
Suzy Rhoden