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De Mãe para mãe Katie Garner |
Há três anos, protagonizei um parto normal após três cesáreas. Parto muito desejado e batalhado, uma vez que todos os protocolos me levavam a nova cirurgia. Bati o pé contra o sistema que decidia por mim a via de nascimento. Empoderada. Foi a palavra que mais ouvi. Não consigo utilizá-la, no entanto, sem associá-la a fé que desenvolvi no período gestacional, pois estou certa de que a frente de meus desejos justos havia um Deus abrindo o caminho e preparando meu corpo para o momento sublime de dar à luz um de seus preciosos filhinhos.
Há um ano expandi a experiência, vivendo meu segundo parto normal depois das referidas cesáreas. Foi incrível, momento de protagonismo ímpar, absoluta segurança no processo, conhecimento pleno de meu corpo, intimidade com a dor que prefacia o nascimento. Entreguei-me por completo e o resultado foi um parto avassalador, presenteando-me na véspera do Dia das Mães.
Tornei-me referência para mulheres que buscavam partos respeitosos após múltiplas cesáreas. Meus relatos foram ao mundo, muitas gestantes me procuraram pedindo auxílio para lidar com a dor e administrar os medos durante o trabalho de parto.
Pensei ter chegado ao auge do protagonismo na ocasião e me senti muito grata pelo privilégio.
Mas eu não sabia de nada. Nada mesmo. Nem sequer desconfiava que aquela experiência gerenciando a dor física me ensinaria tão perfeitamente como administrar a dor da alma que em breve conheceria.
A mesma mão que segurava a minha durante a dor em trabalho de parto foi a que me traiu e apunhalou pelas costas, causando-me dor infinitamente maior.
Quem seguraria minha mão agora, no processo doloroso e solitário da separação?
Veio o aprendizado e a certeza de que as experiências com os partos foram preparatórias para algo maior, que exigiria de mim protagonismo: decretar o fim da relação abusiva e assumir a criação de 5 filhos sob minha guarda.
Todo nascimento carrega sua dor. Significa a passagem de um estágio de vida a outro, portanto um fim e um novo início.
Renascer após o fim de um casamento não é diferente. A dor me consumiu em determinado momento. Como a dor física do primeiro parto após as cesáreas, a dor da alma me pegou desprevenida e clamei por anestesia. Não queria aceitar o processo solitário que transcorre por dentro e tira o chão, o rumo, o foco. Queria explicação, justiça, respostas, queria ter razão. Logo percebi que, como no primeiro parto, minha atitude apenas bloqueou o processo e o prolongou. Não adianta resistir a dor, ela precisa ser sentida. É a fase do luto.
Meus olhos então repousaram sobre o segundo parto. Aceitei a dor. Permiti-me senti-la, pois sabia que ela trazia para meus braços a melhor recompensa. O resultado foi um parto rápido e intenso, experimentado em toda sua grandeza.
Entendi o processo.
A dor é aliada, uma amiga. Ela traz aprendizado e bênçãos. É necessária para que a vida se renove e meu mundo em preto e branco dos abusos se encha de cores e flores.
Se a dor é inevitável, protagonismo é escolha. Posso sofrer a ação e tornar-me refém do passado, mortificada por tudo que vivi; ou posso ser ativa na aceitação do que não pode ser mudado e converter tudo em aprendizado.
Da mesma forma que quebrei um ciclo de cesáreas desnecessárias, resgatando para mim o protagonismo daqueles momentos singulares, reassumi o comando da vida. Soltei a mão que ostentava proteger mas o tempo todo fez subjugar.
Doeu por um momento, e então veio o alívio. A paz. A recompensa.
Protagonista, agora sim! Não apenas de partos.
De mim.